Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes de Ourém.
Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010
Música erudita versus música tradicional

Pela sua envolvência e salvo opinião técnica mais fundamentada no que respeita às condições acústicas, a Igreja da Colegiada, em Ourém, parece ser o local mais apropriado à realização de espectáculos de música erudita, mormente dos períodos medievais e barroco, incluindo a recitação de poesia do nosso cancioneiro galaico-minhoto que representa a aurora da poesia portuguesa.

E, para que melhor se compreenda que não existe qualquer barreira entre a música erudita e a música popular, sendo injustificado um certo preconceito existente em relação ao folclore, transcreve-se seguidamente um artigo recentemente publicado no Portal do Folclore.

Opera Serrana

A música erudita é, por definição, toda a criação musical resultante da erudição, produzida de acordo com regras que foram sendo estabelecidas ao longo de várias épocas, integrando vários géneros que respeitam a diferentes fases estéticas e que vão desde a Idade Média aos nossos dias. Ela abrange períodos tão distintos que correspondem a categorias tão diversas como a música medieval e renascentista, a música barroca e a clássica, do Romantismo e a música contemporânea. Com influência grega e hebraica, as suas raízes remetem para a liturgia cristã e das canções trovadorescas que estão na origem do cancioneiro galaico-minhoto.

Por conseguinte, o conceito de música erudita não contempla a música popular tradicional. Porém, muitos foram os compositores que, ao longo dos tempos, se inspiraram nas tradições folclóricas para construírem as suas obras musicais. Bastará que nos recordemos de Brahms, Haydn e Beethoven, nos países germânicos, Lizt e Béla Bártok, na Hungria e Stravinsky, na Rússia. E, entre nós, Luís de Freitas Branco e Fernando Lopes Graça, Ruy Coelho e Vianna da Motta. Conforme disse João de Freitas Branco: “Uma história da música portuguesa, ainda que tendo como objecto a arte sapiente de compositores e intérpretes, não pode ignorar o que é, afinal, a mais portuguesa de quantas músicas, porque vive no seio do povo”.

Desde logo, podemos situar nas “cantigas de escárnio e maldizer” a origem das desgarradas e cantares ao desafio, da mesma forma que os poetas repentistas se filiam na tradição dos jograis e menestréis, conservando a sátira como sua principal característica. Retomando as palavras de João de Freitas Branco, “…as danças dos pauliteiros, com seus trajes e preceitos curiosíssimos, dir-se-iam também reconstituições de costumes medievais, enquanto as encomendações das almas acusam de outro modo a penetração cristã. Os belos corais alentejanos sugerem a influência da música polifónica religiosa, que foi tão brilhantemente cultivada na região, e outros exemplos, nomeadamente no Douro Litoral, descendem também do canto a duas e mais vozes de há centenas de anos, conservando por vezes, pouco deterioradas, formas definidas, designadamente de vilancico, e permitindo até, num ou outro caso, aventar a hipótese de proveniência de trechos conhecidos por via dos cancioneiros renascentistas”.

Com efeito, o cante alentejano deve em grande parte a sua influência à música polifónica dos frades da Serra d’Ossa e à denominada “Escola de Évora” que constituiu um dos expoentes do período barroco, considerada a idade de ouro da música portuguesa, denunciando o cantochão no modo muito peculiar da forma mais solene de cantar na margem direita do rio Guadiana. Antes, porém, encontramos no teatro de Gil Vicente a inspiração da música tradicional a acompanhar versos de sabor popular:

Em Portugal vi eu já

Em cada casa pandeiro

E gaita em cada palheiro;

E de vinte anos a cá

Não há hi gaita nem gaiteiro

É ainda nesta época, mais concretamente durante o reinado de D. João V, que o célebre compositor Domenico Scarlatti, filho do não menos famoso Alessandro Scarlatti, se fixa em Lisboa e passa a viver na corte portuguesa, tendo aí desempenhado as funções de compositor real e mestre dos príncipes. Também ele se inspira no folclore português e compõe duas sonatas baseadas num fandango e numa canção típica da Estremadura.

Mas, são os compositores do Romantismo quem mais recorre aos temas folclóricos, criando obras de inigualável beleza. Esta corrente artística inspirou-se nomeadamente nos temas medievais e na tradição popular com vista à criação de um nacionalismo que veio a conduzir ao estabelecimento de muitas nações independentes na Europa. São dessa altura as mazurcas de Chopin, as rapsódias húngaras de Liszt e Brahms e as danças andaluzes de Manuel de Falla. Dvórak, Stravinsky, Schubert, Schumann, Mendelssohn, Grieg, Debussy, Glinka, Sibélius e Villa-Lobos foram outros tantos compositores que incluíram no seu reportório a música tradicional dos seus países.

Considerado um dos mais consagrados compositores portugueses de sempre, Luís de Freitas Branco compõe Alentejo, Suites nº. 1 e 2, enquanto Vianna da Motta recorre à música tradicional e produz peças para piano como “Rapsódias portuguesas”, “Canções portuguesas” e “Duas Romanzas”. Entre os seus discípulos contam-se João de Freitas Branco e Fernando Lopes Graça. Também Alfredo Keil e a sua “Ópera Serrana” e Ruy Coelho, a quem se deve a divulgação internacional da ópera portuguesa, a ópera “Tá-Mar” e as músicas sinfónicas “Rondó Alentejano” e “Seis Canções Populares Portuguesas e Peninsulares”. Foi o autor da banda sonora do filme “Ala-Arriba!”, de Leitão de Barros.

Graças à invenção dos gravadores de som, surgiu nos finais do século XIX a etnomusicologia – ou antropologia da música – que visa o estudo musical da canção folclórica e o seu enquadramento etnográfico, dando origem a um árduo trabalho de recolha que viria a ser fundamental para a sua reconstituição e também para a criação dos reportórios dos ranchos folclóricos. Entre os seus fundadores contam-se os húngaros Zoltán Kodály e Béla Bartók que procederam ao levantamento da música tradicional húngara e romena.

Na senda de Béla Bartók, Fernando Lopes Graça produziu numerosas peças corais inspiradas no folclore português, de entre as quais salientamos “eu fui à terra do bravo”, publicou “A Canção Popular Portuguesa” e, em parceria com Michel Giacometti, a “Antologia da Música Regional Portuguesa”. Este, por sua vez, publicou o “Cancioneiro Popular Português” e procedeu a um grandioso trabalho de recolha de música tradicional.

Uma vez mais, parafraseando João de Freitas Branco, “O estudo ao mesmo tempo aprofundado, sistemático e em grande escala do folclore nacional está ainda por fazer. (…) Se as entidades competentes lhes não acudirem, não tardará que se perca para sempre um insubstituível tesouro nacional”. Constatando a ignorância com que o folclore é frequentemente encarado, bem revelador de um certo provincianismo que se pretende fazer passar por cosmopolita, não nos surpreende que o mesmo acabe irremediavelmente perdido!

 

Bibliografia:

- GRAÇA, Fernando Lopes. A Canção Popular Portuguesa. Publicações Europa-América. Lisboa.

- BRANCO, João de Freitas. História da Música Portuguesa. Publicações Europa-América. 4ª Edição. Lisboa. 2005

Opera Serrana2

As imagens mostram a representação, em 1909, da Ópera Serrana, da autoria de Alfredo Keil, no Teatro da Trindade, distinguindo-se à direita as adufeiras da Beira Baixa.

 

- GOMES, Carlos. O Folclore e a música erudita. Folclore de Portugal-O Portal do Folclore Português. http://www.folclore-online.com/index.html

Fotos: Arquivo Fotográfico da C.M.L.

 

citações: http://o.castelo.vai.nu/miradouro/



publicado por Carlos Gomes às 05:00
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