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Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010
Fernando Mangas Catarino: um biólogo oureense (II)

A Paixão de Ensinar

Fernando Catarino

Após 50 anos de discência e docência na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o Professor Fernando Mangas Catarino foi jubilado, em 2002.

Director do Jardim Botânico daquela Universidade, na Rua da Escola Politécnica, ao longo de 20 anos, a sua vida confunde-se com a da Biologia em Portugal na 2ª metade do século XX.

Muitos ex-alunos apontam-no como um marco e uma referência nas suas vidas mas, na verdade, quem é Fernando Mangas Catarino?

“A coisa que eu tenho mais interessante, como pessoa, é, desde que me lembro, ter sido marcado por uma enorme curiosidade pelo saber, um enorme gozo em perceber as coisas.

Eu venho de uma origem rural e habituei-me a considerar normal que, ao plantar uma batata, ao fim de um tempo sai uma batateira e, no tempo certo, saem batatas; o feijão, a germinar; o porco, mandava-se a marrã ao varrasco e ao fim de um cer8 to tempo vinha uma ninhada… portanto, eu vivi isto, cresci com isto, enquanto os miúdos hoje andam nos ATL’s a ver estas coisas, a minha vida era um ATL! Ainda hoje vivo em ATL.

Penso que consegui transmitir aos meus alunos alguma desta atitude e noto isto porque me entusiasmo com as coisas, e fico contente quando as coisas correm muito bem com uma experiência, mas não fico triste nem desanimo quando a hipótese que nós pusemos é completamente ingénua e mal conduzida e o resultado é perfeitamente negativo.

Mas eu fui capaz de me rir e até de “gozar” com os meus próprios falhanços. Porque nós aprendemos com os erros e as derrotas. A outra qualidade que penso ter é a de ser curioso, mas essa curiosidade tem que ser disciplinada, temos que fazer bem as coisas, temos que transmitir com o máximo de segurança e de veracidade o conteúdo das aulas, com uma verdade absoluta, porque nós só conhecemos aquilo que trabalhamos muito bem e mesmo assim há sempre falhas.

E quando estamos a transmitir conhecimento ou novas formas de abordar os conhecimentos, temos que estar constantemente “de pé atrás”.

Eu dei-me conta, nos 40 anos que dei aulas aqui, que em cada ano eu ia descobrindo uma coisa nova que alterava a forma como eu ia dando as matérias.

De facto, foi uma longa carreira de 50 anos, foi muito compensador! Tenho uma visão alargada da Ecologia, não digo à escala mundial, mas europeia, em parte por causa dos meus interesses mediterrânicos (o tema principal da minha investigação foi, durante muito tempo, os problemas da vegetação mediterrânica, que se repetem no Chile, na Califórnia, na Austrália, na Africa do Sul – regiões que visitei, à excepção da Africa do Sul).

E dou por muito bem empregues todos estes 50 anos que passei aqui, foi uma sorte bestial ter escolhido uma área onde não dá para a gente se aborrecer de forma alguma.”

 

Como vê a Biologia em Portugal nos nossos dias?

“Eu tenho defendido a ideia de que ser biólogo hoje é possuir competências para outras áreas como a gestão, a gestão de pessoal e outras, em que surgem situações inopinadas. Além disso, nas várias actividades económicas há hoje imensos campos para os biólogos trabalharem e desenvolverem a sua actividade. Sem soluções mágicas nem panaceias, somos hoje capazes de corresponder àquilo que a sociedade nos está a pedir.

A biologia hoje ganhou um estatuto, já tem uma Ordem! Já há páginas nos jornais a falar de biologia…, já é notícia! E é-o cada vez mais!

Entretanto, é importante que quem ensina esteja cada vez mais esclarecido e saiba seleccionar aquilo que de facto vale a pena aprender, porque não podemos aprender tudo: É preciso apontar o que foi importante no século passado, há 50 anos, há 10, o que é hoje importante (e há coisas gravíssimas como o aquecimento global, problemas de doenças, os cancros, coisas novas que apareceram e continuarão a aparecer, a gripe das aves…).

De facto, um biólogo deve andar no terreno, mas não precisa de estar, por exemplo, na Arrábida para saber o que é que lá está a acontecer agora. Nós lidamos constantemente com fenómenos que são naturalmente complexos, que não são completamente previsíveis devido à ocorrência de perturbações como as secas, os fogos, etc. E nós vamos acumulando essa informação, de tal maneira que quando acontecem perturbações graves como os últimos fogos, dizemos: ”Ahh!, mas o que é que aconteceu… onde é que está…”. E, quando vamos analisar a informação: “Claro! Não está porque…, aconteceu porque …” e isso é importante até para o futuro do emprego dos biólogos.”.

 

Há hoje um novo enfoque da Biologia?

Hoje a Biologia está constantemente a descobrir coisas, e isso dá-me um gozo enorme. Por exemplo, eu não estou com “a mão na massa” há 7, 8 anos e não posso dizer que o que sabia na altura é tudo o que há para saber, porque neste tempo houve progressos extraordinários. Por exemplo, sabe-se agora oficialmente que algumas árvores gimnospérmicas – muito mais antigas do que estas de folha larga – possuem umas células, uns tecidos, que facilitam a chegada da água ao topo da árvore.

Já viram que a força de bombagem necessária para uma árvore com 50 metros de altura é algo impressionante! E a água não falta lá em cima! Ora, há mais de 50 anos que se sabia que haveria diferenças de fisiologia entre estas espécies, mas só agora, finalmente, os mecanismos foram identificados. E a nossa reacção é: “Claro! Tinha que ser assim!”, só que ninguém o tinha conseguido demonstrar.

Entretanto, há outro aspecto, que actualmente povoa a imprensa escrita, o facto de Portugal ir aderir ao cultivo de plantas transgénicas, ao abrigo da revisão da moratória que os regulava. É claro que eu sou muito cuidadoso em relação a este assunto, mas não posso, constantemente, ver o mundo a passar: com cuidado, temos que ir abrindo caminho. São coisas que ainda não estão totalmente estudadas (ainda não há tempo suficiente decorrido).

Em princípio, com o milho transgénico não há o perigo de infectar outros milhos, devido à distância mínima imposta pelas directivas da moratória. No entanto, há outros aspectos que nós ainda não sabemos. Por exemplo, até que ponto os genes que foram obtidos no milho transgénico para ele se defender das lagartas (o milho produz o seu próprio “insecticida”), até que ponto é que esse mecanismo não passa para os microrganismos do solo, o que é muito complicado e não sabemos que consequências pode ter, talvez daqui a uns anos. De qualquer forma isto é levantar problemas onde eles não existem… ainda! Há pessoas que são contra tudo e, por elas não se faz nada. Não! Nós temos é que arriscar, o risco em Biologia é hoje uma área extremamente importante, tal como na Economia, mas temos que ter a noção de que estamos a mexer com a nossa saúde, o ecossistema, a biodiversidade, a biosfera. Daí o cuidado.

O cuidado, que é um conceito muito actual, enquanto responsabilidade ética, moral e social: Cuidado como precaução e cuidado como protecção, zelo (cuidar das coisas). Isto tudo são desafios novos que a Biologia está hoje a preparar para o amanhã.”

 

Falou há pouco, de passagem, mas gostaríamos que especificasse, relativamente às aplicações da Biologia a outras áreas profissionais.

“Eu penso que há 3 áreas nas quais os biólogos estão perfeitamente aptos a trabalhar: Primeiro, a biomedicina, não propriamente a medicina das plantas (que é claramente um campo possível), mas o facto de que um biólogo, pelo seu treino na abordagem integrada do mundo, das moléculas para as células, organismos e ecossistemas, o biólogo tem boa capacidade de discernimento das particularidades que parecem ínfimas, ao contrário do médico, que integra: o biólogo vai à análise, à célula, vai ver coisas que os outros não vêem. E põe questões como: “será que não estou enganado?”, “será que estatisticamente, vi o número de células adequado?”.

Por exemplo, na questão da reprodução assistida, dizem-me que os biólogos desempenham certas tarefas delicadíssimas no geral, melhor do que os médicos, porque têm uma sensibilidade, um treino, objectivos, diversos dos médicos. O biólogo é treinado para ser muito preciso, para trabalhar com o infinitamente pequeno, e saber discernir as consequências da sua acção.

Outra área que eu penso ser importante, e quando eu entrei na Universidade não havia ligação entre a teoria e a prática, os cursos eram esmagadoramente teóricos, aprendiam-se áreas cuja aplicação directa à Biologia não era evidente, como a Matemática. Hoje em dia, os projectos de investigação são conduzidos por grupos de investigadores que incluem muitas vezes gestores, psicólogos, sociólogos, matemáticos, físicos, químicos, biólogos, etc). Do grupo todo, é frequente o biólogo ser quem melhor consegue comunicar com os outros elementos do grupo. Cada um só olha para o seu campo de saber.

O biólogo assegura a inter-conectividade do grupo ao formular questões ao químico, ao estatístico, a que eles têm que responder. Finalmente, o biólogo mexe muito mais nas coisas e aprende a pôr questões e a interrogar a natureza como um investigador. No 1º ano nós pomos logo os miúdos a pôr questões e a participar em discussões. Quando eles vêm bem preparados, reagem de uma forma fascinante e progridem a olhos vistos. Às vezes, o sistema pode ser castrador para eles, especialmente se houver fragilidades emocionais ou temperamentais. E neste caso, à Universidade falta uma certa “surveillance”, um certo acompanhamento dos alunos que nos liceus existe, em maior ou menor grau, mas existe. Por causa de não haver na Universidade, às vezes perdem-se alunos que poderiam ter sido brilhantes, mas que desaparecem no primeiro ou segundo semestre e nunca mais se sabe deles.

Todos os anos recebemos fornadas de jovens, alguns perdidos que não sabem bem do que é que gostam quando vêm para aqui, outros que queriam ir para medicina e vêm para aqui como 2ª escolha. Quando eu entrei na Faculdade, éramos cerca de 30 e saíam, no final dos 4 anos, cerca de 18-20 licenciados. O que é facto é que, actualmente entram aqui (FCUL), cerca de 200 alunos. É certo que 25% desaparecem ao fim de 1 ano, o que é grave. Nós não sabemos deles. Desaparecem.”

 

Mas essa informação devia existir. O que lhes aconteceu?

“Bem, a faculdade está agora a tentar fazer esse trabalho, mas é muito difícil, pela falta de meios.

De qualquer forma, quando eles não têm capacidade, nem treino, nem experiência de trabalho, isto custa muito. Aliás, mesmo com essas competências custa, e por isso tem que haver também gosto no que se está a estudar e a aprender. Em simultâneo, pode haver um relatório para apresentar, um artigo para acabar e uma experiência para realizar… isto é muito intenso! No entanto, muitas vezes via-os a dormir – tinham ido para a “night”, para os copos –, eu tentava despertá-los por meios tradicionais, mas nada. Ora isto não é muito compatível com a dedicação e a disciplina que a Biologia requer.

As pessoas deviam ser mais treinadas a trabalhar e a assumir responsabilidades. O trabalho, em vez de ser um peso, deve ser uma ocasião de obter satisfação, e o nosso trabalho, dos Biólogos, é giríssimo!

E eu tentava ensinar-lhes biologia, ecologia, pôr-lhes uns óculos para que eles vissem o mundo com um olhar de biólogo ou de ecólogo e isto foi extremamente compensador para mim, porque às vezes encontrava miúdos excelentes, com quem ia trabalhar para o campo vários dias e eles telefonavam constantemente, o que me confundia muito. Quando eu lhes perguntava quanto é que gastavam em telemóveis por mês, muitos não sabiam, eram os pais que tinham essa preocupação! Miúdos com vinte e três, vinte e quatro anos, não sabiam quanto é que gastavam nos seus telefones: isto é perigoso!

E depois têm a sorte de arranjar um emprego (nós ainda funcionamos muito segundo a cunha ou os nomes das famílias) e depois, entram por aí fora, muito engravatados ao volante de um topo de gama, a comer nos melhores restaurantes, vão subindo na vida, e o sistema aguenta-os..., mas o sistema não os pode aguentar…

Uma empresa tem que analisar constantemente a performance, tem que pôr metas, objectivos, e nós temos essa dificuldade: formamos aqui uns meninos que queremos que aprendam e saibam, então se disserem aquilo que nós dissemos, ou se compreenderam aquele truque que nós ensinámos, nós ficamos todos contentes... Mas, atenção: nós não estamos aqui a fazer papagaios, nem macaquinhos de imitação. Temos que fazer criadores e criativos, pessoas que sejam melhores do que nós!

Eu sou capaz de fazer uma visita guiada ao Jardim Botânico sem dizer uma palavra acerca das plantas ou da biologia, só pela estética, pelo prazer estético de ver um sistema agradável, que é a função dos jardins e parques, o aspecto estético, espiritual … Em resumo, temos que ter a capacidade de transmitir as nossas ideias, transmitir o gosto pela descoberta.

Eu tive estudantes que tinham estado lá fora, no estrangeiro, em faculdades e laboratórios de grande desenvolvimento científico que, ao fim do dia, tinham feito experiências espantosas, mas que não vibravam com elas. Eu entusiasmava-me efectivamente com as experiências deles e eles lidavam com elas com uma frieza que me chocava, às vezes experiências que demoravam 8, 15 dias e no fim eles só diziam: ”Mm… Está bem, sim, era isto que esperava…”. Para mim, uma coisa muito importante é nós envolvermo-nos afectivamente naquilo que fazemos.

Há dias encontrei os pais de uma ex-aluna a quem perguntei se ela praticava a biologia. Muito tristes, disseram-me que não, que estava a trabalhar num banco, mas que gostava muito de peixes e que era uma pena nunca ter conseguido trabalhar na área. Porquê? Empregou-se como estudante no banco (fez muito bem!), quando se licenciou ascendeu no organigrama do banco e aí tem feito a sua carreira. Hoje, está no topo do ranking hierárquico do banco.

Eu dei-lhes os meus parabéns e fiquei, sinceramente, satisfeito por ver que os biólogos podem ser empresários e financeiros de sucesso, que estão a começar uma nova classe, não tão uniforme como antigamente, mas estão a afirmar-se.

A nova biologia, os novos biólogos, não se enquadram num tipo único, e nós não podemos desperdiçar a mínima oportunidade para que esta estrutura, que não é propriamente um sindicato e que tem uma aceitação a nível jurídico para encartar o biólogo, tenha cada vez mais força. A Ordem é boa para os biólogos, não para nos virarmos contra os agrónomos ou contra os engenheiros que agora também fazem estudos de impacto ambiental, mas há campos de actividade onde nós estamos a aparecer, como o da gestão, do risco (onde os biólogos estão muito bem preparados e activos) e temos que antever, antecipar o que vem aí.

 

Para além da Biologia, o que é que o move?

“Move-me a cidadania.”

 

Activa?

Sim! Bem, actualmente, a nível político, só com os votos e pouco mais. Mas, ao nível da rua, do bairro, ao nível local, eu estou sempre disposto e estou atento. Sou muito conhecido e interactivo no meu bairro, no café, dou-me muito bem com as pessoas, e tento contrariar um bocadinho este anonimato a que a vivência urbana condena as pessoas hoje em dia, e que se torna impossível, opressivo. As cidades, como nós as conhecemos, vão rebentar, não se aguentam, porque geram estes imensos movimentos que levam as pessoas a juntarem-se em grupinhos fechados que nem olham para o lado.

Uma vez, em Bombaim, onde fui com a minha mulher em ‘84, estávamos num hotel excelente que disponibilizava uma carrinha para levar os clientes ao mercado, ao centro da cidade, e aquilo era uma coisa impressionante, uma miséria extrema, com gente a morrer fisicamente ali, na rua, à nossa vista! Eu estava extremamente incomodado e queria ir-me embora dali o mais depressa possível. Voltei para a carrinha, onde estava um grupo de espanhóis, contentíssimos porque tinham uma loja de roupas em Espanha e estavam encantados com as coisas que tinham comprado, baratíssimas, giríssimas, para levar para a boutique. Eufóricos! Eu perguntei-lhes: “Mas já viram esta miséria, isto não vos faz impressão?”. Um deles, aí, ficou mais sério e segredou-me: “A gente não olha, porque senão não goza.”

E no nosso país isto acontece, a gente fecha-se no nosso grupinho e não olha, porque senão não goza. E a cidadania também é olhar e fazer os outros olhar! Além de que não podemos deixar a política só para os políticos, porque é uma coisa séria demais. O cidadão tem que estar sempre a pau, tem que intervir e castigar. E o povo vai dando umas dicas. Isto não vai ser assim como se pensa.

É verdade que é um bocado repetitivo, já não há comícios, mas, de vez em quando, acontece algo de novo. Por exemplo, já viram aquela publicidade dos bigodes, do presidente honesto? É uma coisa interessantíssima, uma forma de mostrar que há pessoas atentas e despertas.

Nos graffitis também se vêem coisas giríssimas e muito incisivas.

Outra coisa que me ocupa, para lá da cidadania, é estar atento ao que se está a passar à escala das paisagens do país, das montanhas, das pradarias, o Alentejo, porque um pouco da nossa identidade, da pátria, como diz o Alegre, vem daí, e nós temos vindo a desintegrar, a “comer” a nossa paisagem. Eu sou muito ligado ao nosso património cultural real, aos saberes e ofícios ancestrais.” “... sou muito ligado.

 

O que gostaria de dizer a um rapaz de 18 anos que queira entrar para a Faculdade de Ciências para tirar uma licenciatura em Biologia?

“Primeiro: “awareness”. É uma palavra inglesa que quer dizer: estar a pau. Des-de o momento em que a pessoa entra, tem que perceber o que se está a passar à sua volta. Não pode vir como uma esponja que absorve tudo. Ele tem que vir de pé atrás e desperto para fazer as suas próprias escolhas e opções. Não tem mal nenhum se mudar de curso ou de especialização. Ele deve vir preparado para escolher aquilo que for vendo que é melhor para ele.

A sua história deve ser escrita por ele, e só por ele, num papel branco, e não vir com ela já escrita, porque aí vai ter muitas decepções. Ele tem que ler os curricula como um cardápio de um restaurante, em que ele escolhe e organiza, ao seu ritmo, a sua própria alimentação intelectual. As pessoas devem investir mais naquilo que acham que lhes dará mais prazer ou que lhes será mais importante.

Agora, com Bolonha, há uma coisa espantosa que é a possibilidade de sair daqui e ir para um Erasmus em Barcelona, ou para o Porto, ou para Aveiro, Inglaterra, França, República Checa. Com a Internet, podemos integrar e colaborar com projectos de investigação à escala europeia ou mundial. Eu posso estudar aqui os passarinhos e enviar para França o meu trabalho, em minutos. Claro que isto também requer envolvimento! Além disso, voltando à questão da cidadania, as pessoas que estão na Universidade são responsáveis, perante o resto do país.

É verdade que temos bons técnicos, cada vez melhores, mas que só percebem do que estudaram, não têm uma perspectiva global ou pessoal da realidade. Os gestores, muitas vezes, só vêem números quando olham para as pessoas, não percebem a complexidade que caracteriza qualquer vida humana: só interessa que a pessoa devia estar naquela reunião muito importante e faltou. Portanto, estar na universidade é uma responsabilidade social, mas também económica, porque custa muito ao Estado manter as Universidades. Quanto à questão do emprego, eu digo muitas vezes à malta nova: “Olha, não te preocupes se há emprego. Preocupa-te com o trabalho. Trabalho há. O emprego vem depois”. Nós fomos sempre um país de mangas-de-alpaca, conservador e clientelista. Tivemos uma ou outra excepção, no tempo das caravelas, e pouco mais. Fizemos a evolução das ideias políticas e somos dinâmicos em criatividade e nas artes. Aqui não precisamos de ter vergonha de dar meças a qualquer povo do mundo. Em termos de desenvolvimento sócio-económico, a verdade é que estamos no fim do mundo e isso também é um desafio para quem entra na universidade. Agora, quem vem para Biologia, não pense que vai ficar rico. A actividade científica é suficientemente rica para dar satisfação às pessoas e contribuir para a realização pessoal, a par de uma vida familiar, social e cultural equilibrada. É uma actividade de tal forma compensadora que muitos cientistas são ou se tornam pessoas materialmente desprendidas e despretensiosas.

Eu gosto muito de viajar, de conhecer outras gentes, outras culturas, e a ciência permite isto. E com uma grande liberdade! Se nós formos bons, se investirmos, vamos sempre avançando com grande satisfação. Por fim, temos que pensar que pertencemos a um exército, a nível mundial (algo desorganizado) mas nós somos peões e soldados desse exército que faz, continuamente, avançar o conhecimento. E como peões, sabemos que demos o nosso contributo para o conhecimento actual ou futuro.”

 

Em jeito de balanço…

“A maior satisfação que tive devo-a à maior parte dos alunos que eu tive a sorte de ter nos últimos 10 anos. Essas pessoas deram-me o enorme prazer de ficarem associadas à minha pessoa enquanto formador ou orientador, muitos deles foram muito além de onde eu tinhaconseguido ir.

Eu não acredito em heranças, mas a responsabilidade ficou entregue com eles, e estão a trabalhar muito bem, muito melhor do que eu e isso dá-me muito prazer. É verdade que muitos professores e chefes nas empresas não têm esta capacidade de se afastar e dar lugar aos novos e bons. Quando às vezes encontro exalunos que me dizem: “Professor, eu fui seu aluno e o professor marcou-me muito”, eu respondo que não marquei nada, até foi uma sorte não os ter estragado ou desencaminhado. Eles fizeram o seu percurso, alguns brilhantes, que escrevem na “Nature” como quem escreve no Diário de Notícias. O último conselho para um jovem aluno é: ser humilde. Antigamente perguntava-se a um miúdo o que é que ele queria ser quando fosse grande e muitos diziam: “cientista”.

Hoje, já poucos o dizem, porque o consumismo e o ter dinheiro, e o status que dá ter dinheiro, nem que seja a vender drogas, isso é mais importante do que a satisfação pessoal. E nós, cientistas, não fomos capazes de passar para a sociedade a ideia de que isto é uma coisa penosa, lenta, falível e que se vai fazendo aos poucos, com pertinácia, organização e método.”

 

E é gratificante?

“É gratificante! Eu acho que não há nenhuma actividade, seja na arte, na indústria, na informática, tão gratificante como a científica. É verdade que temos muito pouca gente na ciência, mas temos a mesma rentabilidade por cientista que a Alemanha, a França ou a Inglaterra. Simplesmente, o investimento total em investigação e o número de cientistas é brutalmente inferior. É verdade que partimos com uma “décalage” significativa, mas nos últimos anos começaram a aparecer publicações e projectos que deram um bom impulso a isto. Os intercâmbios com outras universidades estrangeiras também ajudam a que um cientista se sinta um pouco um cidadão do mundo, supranacional, o que também é compensador.

Bem, já chega, vamos ver o jardim?”

Fernando Catarino

Entrevista conduzida por Nuno Campos e publicada no site da Ordem dos Biólogos, em http://www.ordembiologos.pt/

 

citações: http://o.castelo.vai.nu/miradouro/



publicado por Carlos Gomes às 00:05
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