Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes de Ourém.

Quarta-feira, 4 de Maio de 2016
PORTUGUESES ESCREVEM AO PAPA FRANCISCO

Dois mil visitantes já acederam ao convite do Consolata Museu | Arte Sacra e Etnologia, em Fátima, para escreverem mensagens ao Papa Francisco.

A iniciativa lançada no dia 10 de junho de 2015, convida as pessoas a escreverem sobre panos de linho, que serão depois convertidos numa toalha de grandes dimensões a oferecer ao Sumo Pontífice em maio de 2017, por ocasião da sua visita ao Santuário de Fátima.

Instalados na capela do Centro Missionário Allamano, durante o percurso do museu, os panos contam já com mais de dois milhares de mensagens, de crianças e adultos, nacionais e estrangeiros. Neste momento, todos unidos, dariam para fazer uma toalha com 1050cm de comprimento e 1188cm largura.

Sendo este um museu missionário, da tutela do Instituto Missionário da Consolata, e tendo em conta o espírito evangelizador e missionário da Igreja defendido pelo Papa, os visitantes que percorrem as diferentes salas do museu têm esta oportunidade de transmitir uma mensagem para simbolizar a mesa da partilha, do convívio e da promoção da mensagem da Igreja.

Há uma diversidade muito grande nas mensagens deixadas pelos visitantes, destacando-se os pedidos, louvores, agradecimentos e mensagens de boas vindas a Fátima, em 2017.

Foto: Ana Paula Ribeiro



publicado por Carlos Gomes às 18:59
link do post | favorito
|

Quinta-feira, 16 de Outubro de 2014
OURÉM RECEBE ÓPERA ROMANA PELLIGRINAGGI NOS PAÇOS DO CONCELHO

Foi num ambiente caloroso que a Opera Romana Pelligrinaggi, foi recebida na passada segunda-feira, dia 13 de outubro, no edifício dos Paços do Concelho.

opera romana pelligriniaggi 136-net

A Opera Romana Pelligrinaggi é uma atividade da vigararia de Roma, “um departamento da Santa Sé, cujo serviço assenta num modelo único, de referência para aqueles que querem descobrir a beleza e a profundidade da peregrinação em viagem”.

Presente na sessão esteve o Bispo Auxiliar de Roma, Monsenhor Guerino Di Tora, que afirmou ser uma honra estar em Ourém pois “são ocasiões como esta que permitem a troca de experiências entre as culturas e que fazem de todas as peregrinações momentos únicos, (…) e de aproximação entre os povos”.

opera romana pelligriniaggi 079-net

O administrador deste operador turístico, Monsenhor Liberio Andreatta, afirmou que "há 50 anos que trazemos milhares de peregrinos a Fátima, foi a primeira vez que fomos recebidos pelo presidente da Câmara", elogiando este facto. Para este responsável, “com a peregrinação abrem-se novos caminhos para o mundo interior da oração, o diálogo, a escuta, partilha e convivência harmoniosa entre os povos”.

Paulo Fonseca, presidente da Câmara Municipal de Ourém, começou por felicitar a Opera Romana pelo seu 80º aniversário, saudando “a dimensão do seu projeto”, pela importância do trabalho levado a cabo na promoção da fé e do cristianismo e de união entre os povos e as culturas. Evidenciou ainda "o nosso profundo empenho na criação de novas redes de aproximação entre os povos”. Neste sentido referiu a viagem a Lourdes (França) no próximo dia 24 de novembro, e a passagem por Uersky Brod (República Checa) locais onde vão sendo dados passos na consolidação de projetos de parceria.

Paulo Fonseca terminou a sua intervenção lançando um repto à Opera Romana, no sentido de serem convidados de honra do próximo Workshop Internacional de Destinos Religiosos, que terá lugar em Fátima no final de fevereiro de 2015. O responsável deste operador aceitou com agrado o desafio, contrapondo, convidando o Município para a organização conjunta de um grande evento no âmbito do centenário em 2017 “que projete Fátima no mundo”. A proposta foi recebida com grande satisfação pelo autarca oureense.

 opera romana pelligriniaggi 058-net

opera romana pelligriniaggi 160-net



publicado por Carlos Gomes às 18:25
link do post | favorito
|

Segunda-feira, 6 de Outubro de 2014
OURÉM RECEBE COMITIVA DA OPERA ROMANA PELLEGRINAGGI

A cerimónia de receção da Comitiva da Opera Romana Pellegrinaggi, vai ter lugar no próximo dia 13 de outubro, no auditório dos Paços do Concelho de Ourém.

Esta cerimónia contará com a presença do Bispo Auxiliar de Roma, Monsenhor Guerino Di Tora, e do Administrador Delegado da Opera Romana Pellegrinaggi, Monsenhor Liberio Andreatta.

A Opera Romana Pellegrinaggi escolheu Fátima para comemorar o seu 80º aniversário (um grupo de 300 pessoas estará em Fátima neste âmbito, de 11 a 14 de outubro).

Tendo em vista o reconhecimento deste operador turístico do Vaticano (um dos maiores para Fátima) no desenvolvimento do turismo do Município, será dinamizada uma sessão de receção nos Paços do Concelho.



publicado por Carlos Gomes às 23:09
link do post | favorito
|

Segunda-feira, 9 de Junho de 2014
PAPA FRANCISCO JUNTA PRESIDENTES DE ISRAEL E DA PALESTINA EM ORAÇÃO

Santuário de Fátima unido na oração pela paz 

Unindo-se às intenções do Santo Padre Francisco, que convocou para esta tarde, no Vaticano, um momento de oração pela paz, no qual participarão os presidentes de Israel e da Palestina, este Domingo, no Santuário de Fátima, em todas as celebrações eucarísticas oficiais, se reza “pelos governantes de Israel e da Palestina, para que, no encontro de hoje, se deixem iluminar pelo espírito de Deus na procura da paz e da concórdia”. 

De modo especial, esta intenção de oração será lembrada na Missa das 16:30, celebrada na Capelinha das Aparições, e na Procissão do Santíssimo Sacramento, que lhe segue.

A intenção da paz foi, assim, também esta manhã evocada na Missa Dominical internacional das 11:00, celebrada no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, presidida pelo Reitor do Santuário, padre Carlos Cabecinhas, e na qual participaram várias dezenas de grupos de peregrinos oriundos de Portugal, Espanha, Brasil e Itália.

No momento da homilia, o reitor lembrou que o Pentecostes “não é um acontecimento do passado, algo que aconteceu para aí há dois mil anos e que hoje recordamos”, mas algo de “permanente atualidade, em cada dia”.

“É hoje que recebemos o dom do Espirito Santo; todos nós recebemos o dom do Esprito Santo no momento do Batismo, no Crisma e sempre que participamos na Eucaristia, porque, de facto, é por ação do Espírito Santo que a palavra proclamada se torna viva e fonte de vida para aqueles que a escutam”, disse o padre Carlos Cabecinhas.

“Também a nós [como aos primeiros discípulos] é confiada a missão de anunciar Jesus Cristo, de o mostrar presente nas nossas vidas, de o mostrar presente no nosso mundo”, isto porque onde “chega o Espírito Santo, acontecem mudanças radicais”.

O reitor lembrou ainda como podem os cristãos anunciar Jesus Cristo: "dar testemunhos da nossa fé, nas nossas ações, palavras, opções e atitudes; não é algo facultativo é consequência do nosso ser cristão”.

LeopolDina Simões



publicado por Carlos Gomes às 09:25
link do post | favorito
|

Domingo, 27 de Abril de 2014
S. JOÃO PAULO II É O GRANDE APÓSTOLO DA MENSAGEM DE FÁTIMA NOS TEMPOS MAIS RECENTES

Canonização de João XXIII e de João Paulo II

Tem lugar esta manhã no Vaticano a canonização de João XXIII e de João Paulo II. A participar na celebração, o reitor do Santuário de Fátima deixa a sua reflexão sobre a ligação destes papas a Fátima, sobretudo a de João Paulo II, que diz ser o "grande apóstolo da mensagem de  Fátima nos tempos mais recentes". 

“A canonização dos Beatos João XXIII e João Paulo II, é motivo de grande alegria e de ação de graças a Deus. Ação de graças pelo dom que ambos constituíram para a Igreja, cada um a seu modo e no seu tempo, e pelo dom que continuam a ser, pelo seu exemplo e intercessão”, afirma o padre Carlos Cabecinhas. 

“S. João Paulo II é o Papa de Fátima e o grande apóstolo da mensagem nos tempos mais recentes. Ele levou a mensagem de Fátima a toda a parte, a partir daquele 13 de maio de 1981, quando sentiu ter sido salvo da morte por Nossa Senhora. A mensagem de Fátima atingiu a dimensão eclesial e universal que hoje tem muito graças à ação deste Papa”, diz.

Ainda sobre S. João Paulo II, o padre Carlos Cabecinhas recorda que “na sequência do atentado de 13 de maio de 1981, João Paulo II pediu que lhe levassem a carta de Lúcia com a terceira parte do segredo de Fátima. Leu o texto e reconheceu-se no bispo vestido de branco. A partir daí, sentiu como sua missão fazer o que estivesse ao seu alcance para dar pleno cumprimento aos desejos de Nossa Senhora.” 

A 7 de junho de 1981, dia de Pentecostes, na basílica de Santa Maria Maior, celebrava-se, recorda ainda o reitor, “o Ato de entrega ou consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, através de uma oração composta pelo próprio João Paulo II”. 

Em maio do ano seguinte, no Santuário de Fátima, “o Papa faz de novo a consagração do mundo e da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, procurando cumprir o que fora pedido por Nossa Senhora. Em 8 de dezembro de 1983, escreveu aos bispos do mundo inteiro a pedir que no dia 25 de março do ano seguinte, procedessem à consagração do mundo ao Coração de Maria”. 

Nesse dia 25 de março de 1984, “diante da imagem da Capelinha das Aparições, levada expressamente a Roma para o ato, em comunhão com os bispos de todo o mundo, João Paulo II faz essa consagração, e foi nessa ocasião que ofereceu ao Bispo de Leiria-Fátima a bala que o tinha atingido e que se encontra agora encastrada na coroa preciosa de Nossa Senhora”.

Neste percurso através da história da ligação de João Paulo II a Nossa Senhora de Fátima, o reitor sublinha ainda dois outros momentos: “Em 1991, João Paulo II regressou a Fátima e, em maio de 2000, fez a sua última peregrinação a este Santuário, para beatificar os pequenos videntes Francisco e Jacinta Marto, as duas candeias que Deus acendeu para alumiar a humanidade nas suas horas sombrias e inquietas”.

“Ainda no ano 2000, a imagem de Nossa Senhora de Fátima da Capelinha da Aparições foi levada a Roma, a pedido de João Paulo II, para a consagração do novo milénio a Nossa Senhora”, acrescenta o Reitor.

Recorde-se ainda que, em 2004, João Paulo II ofereceu ao Santuário uma pedra do túmulo de São Pedro para ser tomada como primeira pedra da nova igreja do Santuário de Fátima que, em 2007, se dedicava à Santíssima Trindade e que se encontra inserida no altar daquela que é hoje a basílica da Santíssima Trindade.

LeopolDina Simões



publicado por Carlos Gomes às 13:30
link do post | favorito
|

Quinta-feira, 17 de Outubro de 2013
BISPO DE LEIRIA-FÁTIMA AFIRMA QUE A PRESENÇA DA IMAGEM EM ROMA SIGNIFICA PRESENÇA EM TODA A IGREJA UNIVERSAL

Memórias de uma viagem de graça, alegria e misericórdia

Depois de uma breve deslocação de dois dias ao Vaticano e a Roma, onde foi acolhida como Rainha, na Praça de S. Pedro e no Santuário de Nossa Senhora do Divino Amor, a Imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima regressaria à sua Capelinha das Aparições, na Cova da Iria, ao final do dia 13 de outubro.

Para receber a sagrada imagem estavam o bispo de Leiria-Fátima, vários sacerdotes e várias centenas de peregrinos. “Com sentimentos de profunda emoção”, o bispo de Leiria-Fátima, acolheu a imagem de Nossa Senhora e quem a acompanhou na peregrinação a Roma, agradecendo a todos os presentes na Capelinha.

“Sinto-me unido a vós, agradeço a vossa presença, na medida em que ela é reconfortante para mim e me faz sentir ainda mais devoto de Nossa Senhora, apoiado assim por este povo tão afetuosamente ligado a Fátima”, afirmou D. António Marto.

Além dos presentes na Cova da Iria foram muitos os que acompanharam a chegada da Imagem através das transmissões online em direto, possíveis através do site www.fatima.pt.

No mesmo momento de acolhimento, que foi de oração e de ação de graças, D. António Marto refletiu sobre o significado deste chamamento da imagem a Roma, primeiramente apresentado pelo Papa Bento XVI e, após a sua renúncia, reiterado pelo Papa Francisco.

“A sua presença (da Imagem) em Roma significa a sua presença em toda a Igreja Universal, como mãe solícita que acompanha o povo peregrino, sobretudo nos momentos mais difíceis da sua história, por isso, o Santo Padre quis que estivesse presente a imagem original daquela que veio aqui trazer uma mensagem de consolação do Céu à Terra num momento difícil quer para a Igreja quer para a humanidade”, afirmou.

LeopolDina Simões



publicado por Carlos Gomes às 21:21
link do post | favorito
|

PAPA FRANCISCO RECEBE RELÍQUIAS DOS PASTORINHOS BEATOS DE FÁTIMA

Papa pede que rezem por ele

A irmã Ângela Coelho, postuladora da causa para a canonização de Francisco e Jacinta Marto, foi um dos nove membros da delegação que acompanhou a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, que, a pedido do Papa, esteve em Roma, a 12 e 13 de outubro, para participar na Jornada Mariana promovida pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização.

capela da casa Santa Marta - a delegação

A imagem mostra a delegação que acompanhou a Imagem, tirada na capela da Casa de Santa Marta, onde reside o Papa Francisco.

A 12 de outubro, no momento em que cumprimentou o Santo Padre, a irmã Ângela Coelho ofereceu ao Papa Francisco as relíquias dos pastorinhos beatos Francisco e Jacinta Marto e um fragmento da azinheira em que Nossa Senhora apareceu em agosto de 1917, em Aljustrel.

“O primeiro a cumprimentar o Papa foi o reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, seguindo-se outros reitores de santuários marianos, como Pompeia ou La Salete. Ao chegar a minha vez, disse a Sua Santidade que em Portugal os pastorinhos Francisco e Jacinta são modelo de amor pelo Papa e inspiradores da nossa oração e da oferta dos nossos sacrifícios e da nossa vida pelo Santo Padre. Depois, apresentei-lhe a oferta de um estojo com relíquias dos Pastorinhos e um fragmento da azinheira onde Nossa Senhora apareceu em agosto de 1917”, recorda a irmã Ângela Coelho em entrevista concedida ao Gabinete de Informação e Comunicação (GIC) da Diocese de Leiria-Fátima.

O Papa Francisco beijou carinhosamente as relíquias e disse-lhe: “Sim, rezem por mim!”. “Recordo deste momento, sobretudo, o ar de alegria do Santo Padre e o modo atencioso como ouviu e falou com cada um de nós; fazem-nos sentir como se só existíssemos nós com ele naquele instante”, sublinha.

Para quem tem a missão de dar a conhecer a vida e os méritos dos pastorinhos Francisco e Jacinta, uma imagem especial ficou guardada no seu coração: “Três pequeninas crianças, que pela língua e aspeto físico seriam oriundas de algum país do Norte da Europa, vestidas com os trajes típicos dos Pastorinhos de Fátima”.

Na mesma entrevista, a postuladora refere a enorme emoção que viveu neste “momento histórico para a Igreja e para o mundo”. O que mais a impressionou foi “o amor que as pessoas sentem e manifestam por esta imagem”.

Participaram nestas Jornadas Marianas, integradas no programa celebrativo do Ano da Fé, mais de 800 grupos ligados a diferentes sensibilidades de devoção mariana.

A multiplicidade de raças, nacionalidades, géneros sociais e idades, oferecia “um quadro bem representativo de toda a Igreja e de toda a humanidade a olhar para esta imagem com esperança e carinho”.

A título pessoal, a irmã Ângela Coelho, não esquecerá “o mistério que me foi dado viver de cumprimentar dois papas num dia”.

Isto porque, a 12 de outubro, à chegada ao Vaticano, a imagem foi levada em procissão desde o heliporto da Santa Sé até ao mosteiro onde reside o Papa Emérito. Após o acolhimento por Bento XVI, no exterior do mosteiro, a imagem de Fátima foi levada para a capela do mosteiro, para um momento de oração e de louvor. Logo depois, sempre processionalmente, a Imagem seguiu para a capela da Casa de Santa Marta, onde reside o Papa Francisco, onde esteve até ao momento do encontro com o Papa Francisco e com os milhares de peregrinos que de todo o mundo ali assomaram para participar no primeiro momento da Jornada Mariana.

“Este encontro do Ano da Fé é dedicado a Maria, Mãe de Cristo e da Igreja, nossa Mãe. A sua imagem, vinda de Fátima, ajuda-nos a sentir a sua presença no meio de nós. Há uma realidade: Maria leva-nos sempre a Jesus. É uma mulher de fé, uma verdadeira crente”, foram as primeiras palavras do Papa Francisco proferidas junto da imagem de Fátima na sua catequese mariana. 

LeopolDina Simões



publicado por Carlos Gomes às 11:44
link do post | favorito
|

Sábado, 12 de Outubro de 2013
DESLOCAÇÃO A ROMA DA IMAGEM DE FATIMA TRARÁ PROJEÇÃO MUNDIAL A SUA MENSAGEM

Em entrevista à rádio Renascença a propósito dos dias 12 e 13 de outubro, Cardeal Tarcisio Bertone destaca conjugação espiritual entre Fátima e Roma

“É muito belo que Nossa Senhora venha ao centro da catolicidade, da cristandade, que venha a Roma, junto do Papa que é tão devoto de Nossa Senhora. Ao mesmo tempo, o Secretário de Estado do Papa Bento e do Papa Francisco vai a Fátima, ao lugar das aparições”, referiu, em entrevista à rádio Renascença, à jornalista Aura Miguel, D. Tarcisio Bertone, que preside em Fátima a 12 e 13 de outubro à peregrinação internacional aniversária.

4546574-3x2-940x627

O Secretário de Estado do Vaticano, que deixará este cargo a 15 de outubro, destaca a “conjugação espiritual e ideal entre os dois lugares, os dois acontecimentos e as duas assembleias de oração”, nestes dois dias.

Ao reconhecer que a deslocação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima que se venera na Capelinha das Aparições ao Vaticano trará "projeção mundial" à mensagem de Fátima, o Cardeal D. Tarcisio Bertone recordou os bastidores que levaram à publicação e interpretação, no ano 2000, do conteúdo do terceiro segredo, revelado aos pastorinhos em 1917.

http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=29&did=125410 

D. Tarciso Bertone revelou que trará uma mensagem concreta aos peregrinos que na Cova da Iria participarão nas celebrações da peregrinaçãp a que presidirá: Não tenhais medo!, o tema que este ano pastoral o Santuário de Fátima propõe aos seus peregrinos e visitantes.

“A mensagem de Fátima convida-nos a confiar nesta certeza, nesta promessa do Senhor: Não tenhais medo! Eu (em Fátima) repetirei esta expressão. Nossa Senhora também repetiu esta expressão à Irmã Lúcia – que é a expressão do anjo na anunciação a Nossa Senhora; por isso, há uma continuidade na revelação pública, na revelação de Deus à humanidade, no mistério da encarnação, e com a responsabilidade de cada um de nós, ou seja, confiar-se à promessa de Deus que venceu o mal e que a liberdade é para o bem!”, afirmou.

Na mesma entrevista, o cardeal adiantou também que falará em Fátima, pegando no testemunho perseverante dos Pastorinhos de Fátima, sobre a força da oração: “Os pastorinhos eram crianças muito maduras, tinham percebido bem a mensagem sobre a oração. Há uma expressão de Francisco, que vou citar na homilia de Fátima, quando foram presos pelo governador e os maltrataram, porque queriam que negassem as aparições, separando-os uns dos outros. Mais tarde, perguntaram a Francisco:

- Em que pensavas, estavas desesperado, sentias solidão?

Francisco respondeu:

- Eu rezava para que a Jacinta não tivesse medo e não cedesse!

Isto é belíssimo, revela o sentido da oração num momento tão difícil para uma criança. Um exemplo para não ceder ao medo nem às más companhias!”



publicado por Carlos Gomes às 03:22
link do post | favorito
|

Quarta-feira, 2 de Outubro de 2013
SECRETÁRIO DE ESTADO DO VATICANO PRESIDE EM FÁTIMA À PEREGRINAÇÃO INTERNACIONAL ANIVERSÁRIA DE OUTUBRO 2013

O cardeal D. Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, presidirá em Fátima à peregrinação internacional aniversária de outubro, nos dias 12 e 13. O tema da peregrinação será "Mantenhamos firme a confiança" (Heb 3, 14).

tarcisio-bertone-151456

Até ao presente momento, 108  grupos organizados de peregrinos, oriundos de 27 países, anunciaram junto do Serviço de Peregrinos a intenção de participar no programa oficial da manhã de 13 de outubro no Santuário de Fátima. Com maior expressão estão os grupos de Itália (16 grupos), Portugal(14) e França (10).

Na carta-convite que enviou, a 12 de julho, aos bispos de Portugal a anunciar a vinda de D. Tarcisio Bertone a Fátima, D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, destacou que “a presença do Cardeal Secretário de Estado dará uma expressão particular à comunhão com o Santo Padre, tão caraterística

da mensagem de Fátima”.

Recorde-se que, no encerramento dos 90 anos das Aparições de Fátima, em outubro de 2007, D. Tarcisio Bertone, na qualidade de Secretário de Estado e de Enviado do Santo Padre Bento XVI, presidiu à PEREGRINAÇÃO ANIVERSÁRIA DE OUTUBRO DE 2007. Na tarde de 12 de outubro de 2007, foi inaugurada a Igreja da Santíssima Trindade, atual Basílica da Santíssima Trindade.



publicado por Carlos Gomes às 19:12
link do post | favorito
|

Terça-feira, 20 de Agosto de 2013
PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO ANUNCIA PROGRAMA DA JORNADA MARIANA DE ROMA

Presença da Imagem de Nossa Senhora de Fátima divulgada

Na sua página oficial na Internet, http://www.annusfidei.va/, o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização anuncia o programa da Jornada Mariana, em Roma a 12 e 13 de outubro deste ano, e para a qual, em resposta ao pedido do Santo Padre, será levada a Imagem de Nossa Senhora de Fátima que se venera na Capelinha das Aparições. 

No programa, disponível em vários idiomas, ainda não em Português, é já incluída a referência à presença da Imagem de Nossa Senhora de Fátima.

Anunciada como “celebração de um dia mariano com a presença de todas as associações marianas” e com o tema “Feliz és Tu Que acreditaste!”, a Jornada Mariana é uma organização do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, inserida no programa do Ano da Fé. 

Um dos vários momentos agendados, designado “Com Maria durante a noite”, é uma organização da Vigararia de Roma com o patrocínio deste Pontifício Concelho.

O link direto para a Jornada Mariana é:

http://www.annusfidei.va/content/novaevangelizatio/pt/eventi/giornatamariana.html

Programa

Sábado, 12 de outubro

08:00-12:00 – Peregrinação ao Túmulo do Apóstolo Pedro

09:00-12:00 – Adoração e celebração do Sacramento da Penitência em igrejas próximas da Praça de São Pedro

17:00 – Praça de São Pedro: receção à Estátua de Nossa Senhora de Fátima, na presença do Papa

Catequese Mariana

A partir das 19:00 – Chegada da Estátua de Nossa Senhora de Fátima ao Santuário da Divina Misericórdia e começo do tempo de oração intitulado “Com Maria durante a noite”, evento organizado pela Vigararia de Roma e patrocinado pelo Pontifício Concelho para a Nova Evangelização, que inclui:

a. Recitação do Terço com todos os que, por todo o mundo, acompanham o evento (19:00)

b. Vigília de oração (a partir das 22:00)

Domingo, 13 de outubro

08:00 – Chegada à Praça de São Pedro

10:00 – Recitação do terço

10:30 – Santa Missa celebrada pelo Papa Francisco na Praça de São Pedro

Para outras informações sobre a deslocação da Imagem de Fátima ao Vaticano:

http://www.fatima.pt/portal/index.php?id=66425



publicado por Carlos Gomes às 19:59
link do post | favorito
|

Segunda-feira, 12 de Agosto de 2013
FÁTIMA: IMAGEM DA CAPELINHA DAS APARIÇÕES VAI AO VATICANO EM OUTUBRO

Papa Francisco decidiu consagrar mundo ao Imaculado Coração de Maria

A imagem da Virgem de Fátima que se encontra na Capelinha das Aparições vai viajar até ao Vaticano em outubro, para uma celebração de consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, a pedido do Papa.

A revelação foi feita hoje em Fátima pelo bispo local, D. António Marto, em conferência de imprensa, o qual adiantou ainda que a peregrinação de outubro ao Santuário vai ser presidida pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone.

A celebração decorre no final do Ano da Fé, proclamado por Bento XVI e insere-se numa jornada mariana, referiu o padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima.

Esta será a primeira vez que a imagem vai estar ausente da Cova da Iria (Distrito de Santarém, Diocese de Leiria-Fátima) durante uma peregrinação internacional aniversária, celebradas nos dias 13 de cada mês entre maio e outubro, evocando as seis aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos, em 1917.

Francisco repete um gesto realizado por João Paulo II (1920-2005), diante da mesma imagem, a 25 de março de 1984, na Praça de São Pedro, Vaticano.

O Papa polaco, que visitou Fátima em três ocasiões (1982, 1991, 2000), proferiu então diante da imagem da Virgem o ‘ato de consagração’ que já tinha feito na Cova da Iria, a 13 de maio de 1982.

A imagem chegou ao Vaticano, diretamente da Capelinha das Aparições, no dia 24 de março de 1984, levada pelo bispo de Leiria, D. Alberto Cosme do Amaral, tendo sido transportada em procissão até à Capela Paulina, no Palácio Apostólico.

Na manhã seguinte, durante a celebração do jubileu da Família por ocasião do “Ano da Redenção”, ficou exposta na Praça de São Pedro.

“Queremos confessar que o Amor é maior que o pecado e que todos os males que ameaçam o homem e o mundo”, rezou então João Paulo II.

Pio XII tinha realizado a consagração do mundo ao coração Imaculado de Maria em 1942 e 1952, tendo como pano de fundo o sofrimento provocado pela II Guerra Mundial.

“A força desta consagração permanece por todos os tempos e abrange todos os homens, os povos e as nações; e supera todo o mal, que o espírito das trevas é capaz de despertar no coração do homem e na sua história, e que, de facto, despertou nos nossos tempos”, disse João Paulo II, que entregou a D. Alberto Cosme do Amaral (falecido a 7 de outubro de 2005) a bala que o tinha atingido no atentado de que tinha sido vítima a 13 de maio de 1981.

A imagem da Capelinha das Aparições voltaria ao Vaticano a 8 de outubro do ano 2000, quando João Paulo II decidiu consagrar o novo milénio à Virgem Maria, na presença de 1500 bispos de todo o mundo.

A imagem apenas deixa a Capelinha das Aparições em ocasiões consideradas “muito especiais”, segundo explica o Santuário.

Além das duas viagens ao Vaticano, a escultura esteve em Lisboa (1942 e 2005),Estremadura e Ribatejo (1946), Alentejo e Algarve com passagens por Espanha (outubro de 1947 a janeiro de 1948), Madrid e outras localidades de Espanha (22 de maio e 2 de junho de 1948), Diocese de Leiria (1951 e 2010), Santuário de Cristo Rei e Lisboa (1959 e 2009).

No comentário teológico ao ‘segredo de Fátima’, o então cardeal Joseph Ratzinger, hoje o Papa emérito de Bento XVI, apresentava como “palavra-chave” para a mensagem transmitida aos pastorinhos a frase ‘O meu Imaculado Coração triunfará’.

“Este Coração aberto a Deus, purificado pela contemplação de Deus, é mais forte que as pistolas ou outras armas de qualquer espécie.

CB/OC

Fonte: http://www.agencia.ecclesia.pt/



publicado por Carlos Gomes às 17:05
link do post | favorito
|

Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
Radio Vaticano recorda primeira viagem de João Paulo II a Fátima

Recado de João Paulo continua muito atual

Na sua página on-line na versão portuguesa, a Radio Vaticano (RV) recordava ontem, 1 de fevereiro, a primeira peregrinação do Papa João Paulo II a Fátima.

Na rubrica “Memória Histórica” era recordado o dia 13 de maio de 1982: “Estamos em Portugal. Em 13 de maio de 1982, João Paulo II visitava pela primeira vez como Papa o Santuário de Fátima, em forma de agradecimento pela sua própria vida”.

Eram relembradas as palavras de João Paulo II no seu agradecimento a Nossa Senhora e aquelas em que falou sobre a mensagem de Fátima.

“O Papa então lembrou os mistérios de Fátima, que em 13 de maio de 1917 começaram a ressoar pelo mundo, até 13 de outubro daquele mesmo ano”, referia a rubrica.

Após evocar que “João Paulo II, durante a sua homília no Santuário de Fátima, disse que ‘consagrar o mundo ao Coração Imaculado de Maria´ era o caminho para estar mais perto da Fonte da Vida”, a RV lembrava a atualidade da exortação do agora beato.

“(Há) trinta anos atrás, João Paulo II disse estar com o ‘coração amargurado’ por ver os caminhos opostos que a humanidade seguia em relação ao apelo de Nossa Senhora de Fátima à penitência e à conversão. Um recado que pode estar registado no passado, mas que nos dias de hoje, continua muito atual”, refere o artigo ainda disponível na página on-line da Rádio Vaticano.

LeopolDina Simões



publicado por Carlos Gomes às 18:33
link do post | favorito
|

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
DEPUTADO À ASSEMBLEIA NACIONAL, EM 1947, ALUDE AO SANTUÁRIO DA COVA DA IRIA A PROPÓSITO DA PEREGRINAÇÃO A ROMA POR OCASIÃO DA CANONIZAÇÃO DE S. JOÃO DE BRITO

A propósito da peregrinação nacional que foi realizada a Roma por ocasião das cerimónias da canonização de S. João de Brito, o deputado Idalêncio Froillano de Melo, eleito pelo círculo eleitoral da Índia à IV Legislatura da Assembleia Nacional, pronunciou na sessão ocorrida a 2 de Dezembro de 1947 um brilhante discurso no qual também fez referência à Cova da Iria.

Froillano de Melo era natural de Goa tendo-se licenciado em Medicina na Universidade Médica de Nova Goa, com equivalência pela Universidade do Porto. Foi Director dos Serviços de Saúde de Goa, professor universitário, membro do Conselho Ultramarino e do Conselho do Governo do Estado Português da Índia, entre outros cargos que exerceu.

Pelo seu interesse histórico e literário, transcreve-se o seu discurso conforme o publicado no Diário das Sessões no dia seguinte.

“Sr. Presidente: no interregno parlamentar que decorreu entre a última sessão legislativa e a que acaba V. Ex.ª de inaugurar com a sua prestigiosa autoridade houve um evento da vida nacional que merece ser sublinhado com o devido relevo nos anais que registam os trabalhos desta Casa.

«Embaixada de almas» lhe chamou o Santo Padre, e nunca uma classificação mais adequada foi expressa na nossa bela língua por lábios mais competentes e perante a augusta majestade de um cenário de tão incomparável e inesquecível grandeza!

Refiro-me -já o haveis certamente adivinhado! - à peregrinação portuguesa a Roma em homenagem a S. João de Brito. Teve uma projecção de largo alcance nos círculos políticos estrangeiros, porque, no meio das ondas revoltas do momento que passa, essa embaixada, em que tomaram parte portugueses vindos de todas as terras do império -Portugal continental, insular e ultramarino -, veio a constituir uma magnífica demonstração de paz e de. fraternidade cristã, que tem sido no curso dos séculos o ideal da alma portuguesa.

Foi um avatar da brilhante embaixada que no século XVI foi enviada pelo Rei D. Manuel a pedir à Santa Sé as bênçãos do Céu para as descobertas e empresas com que os nossos navegadores maravilharam o Mundo. O presente avatar é revestido, porém, de um sentido mais profundamente espiritual; ó ao mesmo tempo um testemunho e um desafio ao julgamento da História! Porque vem demonstrar à consciência do Mundo que os cinco séculos da expansão portuguesa para além do Atlântico visaram menos ao engrandecimento do domínio material pelo aço dos guerreiros que ao ideal cristão da fraternidade universal, infiltrado nas almas dos povos pelas preces dos missionários.

Ao lado da espada a cruz, ao lado das armaduras reluzentes do soldado o burel apagado do frade, que não tem outro escudo que o Evangelho de Cristo e a flama interior da sua vida de penitente!

Foi esse ideal de fraternidade que vieram demonstrar em Roma os dois milhares de portugueses nesse memorável cortejo que sob a égide dos nossos cardeais entrou na Basílica de S. Pedro a entoar os hinos harmoniosos da Cova da Iria. Surge o estandarte do Santo, escoltado por clérigos portugueses e ladeado por quatro Deputados à Assembleia Nacional. O momento é solene. Ressoam palmas. E o canto que entoam em coro uníssono milhares de homens e mulheres portuguesas, esparsos pelas naves do Vaticano, é um coro de glória que do âmago das almas sobe ao Céu infinito.

Sob a grande cúpula do Vaticano, onde a magnificência, o fausto e a arte se dão as mãos num conjunto que esmaga a mente humana, sentimo-nos todos orgulhosos de sermos portugueses! Porque, se há nação que com justiça possa arrogar-se o título de ser a que primeiro que todas, e mais que todas, espalhou pelo Mundo a civilização cristã, é sem dúvida a Nação Portuguesa! E porque essa civilização, cujo símbolo é a cruz que orna o peito dos nossos peregrinos, quer dizer a irmanação dos seres humanos oriundos dos mais diversos pontos do Globo, num mesmo sentimento de paz e fraternidade universal.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Sr. Presidente: ser-me-ia impossível desvendar perante a Assembleia Nacional, dentro dos limites do tempo que me é permitido, toda a grandeza da obra do missionarismo português nas novas terras trazidas ao intercâmbio do inundo ocidental.

Restringindo apenas à península indiana a minha resenha, vejo que a minha terra de Goa foi o centro donde partiram as equipes de ceifeiros para a conquista das almas no Oriente. Das terras do Grão-Mogola Lhassa, de Manila à China e ao Japão, em todo esse vasto cruzeiro que compreende três oceanos e quatro continentes, não há mar que não tenha tragado no abismo das suas tormentas os corpos desses heróis do Evangelho, não há solo que não tenha sido regado com o sangue desses mártires do exército de Cristo.

Mons. Leo Kirkels, delegado do Vaticano na Grande índia, baseando-se em dados fornecidos pelo meu conterrâneo Mons. Niceno de Figueiredo, publicou um mapa da propagação da fé cristã irradiando de Goa, que é, de per si um brasão de honra para o meu País.

Nos cânticos que os peregrinos elevaram em Roma em louvor da alma luminosa de S. João de Brito há algo de subtil e de imponderável que é meu dever realçar ante os vossos olhos: esses cânticos devem ser considerados como o testemunho vivo da alma portuguesa, estruturalmente assimiladora e igualitária.

O Evangelho fraternizando as almas humanas, a fé de Cristo ligando os povos como, membros de uma só família, a grande família cristã. É esta lição de fraternidade humana que Portugal foi demonstrar solenemente perante o Santo Padre a evidência mais palpitante que nestes tempos de ódios e dissidências e revoltas de classes e seitas e povos a alma portuguesa poderia com orgulho depor no tablado da Assembleia das Nações.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - A doutrina da igualdade em Cristo não era inteiramente desconhecida na índia antes da chegada dos portugueses. Fora pregada no 3.° quartel do século pelo próprio apóstolo S. Tomé em Cranganor, no Malabar e em Coromandel.

Vitima das perseguições dos nababos locais, sujeita aos bispos nestorianos da Pérsia e Babilónia, arrastava-se porém espúria ou ignorada, com reforços ocasionais de baptismo e de fé que lhe viesse trazer algum missionário desviado do seu roteiro de viagem.

Frei João de Mont-Corbin, enviado à China, pára durante treze meses na igreja de S. Tomé e baptiza aí 100 pessoas. Em 1321 Frei Jordan baptiza 300 indivíduos. Em 1348 o bispo Jean de Marignolli, regressado da China, chega a Cantão, onde na igreja de S. Jorge celebra o santo oficio em Domingo de Ramos.

E eis tudo! Até 1498, data da chegada dos portugueses ao Oriente, o cristianismo na índia limitava-se aos cristãos de S. Tomé no Malabar, à comunidade nestoriana de Kalyan e aos cristãos do rito latino de Cantão.

É pois a Portugal que o mundo cristão deve a floração incomparável do cristianismo na índia, bem como a Santa Sé a submissão a Roma dos nestorianos de Coromandel, graças aos esforços do bispo português Frei Aleixo de Meneses no Sínodo de Diamper em 1599.

E é Goa o centro da nova cruzada. Crescet et floret. E quando a nova diocese é elevada por Paulo IV à dignidade arquiepiscopal (1577) o missionarismo português contará nas diversas dioceses da índia nada menos que 100:000 cristãos, segundo o cômputo de Mons. Leo Kirkels. Que esplêndida multiplicação dos primeiros 22 cristãos indianos baptizados na ilha de Angediva pelos franciscanos do Pedro Álvares Cabral!

Goa, como vedes, não se limitou a receber somente a fé de Cristo. Ela tornou-se o centro de onde irradiou a cultura cristã para todas as terras do Oriente.

E o campo da acção desse missionarismo não se limitou às 3:000 léguas da costa descobertas pelas nossas caravelas, mas estendeu-se pelo hinterland das mais variadas regiões. Edificam conventos, colégios, hospitais e asilos franciscanos e jesuítas. Os dominicanos que trabalhavam nas Áfricas são atraídos pelo esplendor da colheita na índia (1548); os agostinianos largam a Pérsia e Mom-baça e Mascate para se internarem nosjungles de Bengala. (1599); os teatinos trabalham em Golconda, Bijagós e no planalto do Decão (1646); os oratorianos foram servir em Ceilão (1685) a fé que aí estava vacilante após u ocupação holandesa.

E tudo isto - não será demais repeti-lo!- foi obra de padres portugueses, ou de padres educados em escolas portuguesas, ou de padres trabalhando sob a protecção da bandeira de Portugal!

Mas toda essa obra grandiosa não poderia ser levada a cabo sem sacrifícios e sem vítimas!

Sr. Presidente: as fontes de que me servi para este rápido resumo são exclusivamente hauridas em trabalhos de dois compatriotas meus, goeses, aos quais presto a minha homenagem; ambos já mortos e que em vida me honraram com a sua estima: o cónego Herédia e o velho padre Nazaré, cujas Mitras Lusitanas constituem um arquivo de glória para a história eclesiástica de Portugal no Oriente.

Pois bem! Nessa magnífica obra pude contar nada menos que 1:300, mártires da fé, entre 1498 a 1801, massacrados na África Oriental, na índia, em Ceilão, no Extremo Oriente! Os seus nomes e proveniências, as datas e o género do seu martírio estão minuciosamente registados para que os cubra o manto da nossa piedade. Toda a espécie de vítimas, mesmo um bispo - D. Apolinário de Almeida, massacrado em Cinadea em 1638, juntamente com os seus dois companheiros jesuítas. Todos os géneros de martírios: decapitação, esmagamento sob as patas dos elefantes, apunhalamento, veneno, forca, esmigalhamento à boca do canhão, toda a sorte de horrores! Sem falar da carnificina em massa, como a que se deu em 1580, em que por ordem do rei de Ternate, Bab Ulha, foram aniquilados de uma só vez 60:000 cristãos.

Sr. Presidente: no momento em que o santo padre coroou com a auréola celeste a cabeça do mártir João de Brito, no coração dos peregrinos portugueses, no seu subconsciente, se vincou este sentimento de uma majestade incomparável: que esta canonização é a consagração solene de todos os nossos mártires no Oriente, conhecidos ou anónimos, que se deixaram imolar pela fé de Cristo e que vêem hoje consubstanciada a grandeza do sou sacrifício nessa figura principesca do nosso martirológio que em 22 de Junho foi canonizada na grandiosa Basílica do Vaticano.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Na história do missionário português no Oriente, em geral, e na índia, em particular, há três marcos miliários radiantes de luz.

O primeiro é a acção apostólica de S. Francisco Xavier! Cristãos e hindus, parses e muçulmanos acorrem ao seu túmulo, para ali prosternarem a sua humildade perante a grandeza do Infinito. Cerca-o um halo de veneração e de lenda. A sua memória é imortal! Na verdade vos afirmo: a Goa do Hidalcão, que desde há cerca de cinco séculos se tornou a pérola da coroa de Portugal, poderá sofrer os vaivéns do Destino; mas a Goa do S. Francisco Xavier viverá eternamente no coração das cristandades do Universo.

O segundo marco miliário dessa magnífica Via Áurea é o Santo que acaba de ser canonizado. A sua vida é um poema luminoso de ternura e de sacrifício. A acção dos nossos missionários já não tem para a encorajar o prestígio da nossa espada, que declina. Que fazer pois para transpor as barreiras que lhes opõem os povos hostis e levar às almas a paz do Evangelho? Imitar a obra de S. Francisco, mas sob um burel adaptado ao meio que os circunda. É a este período que pertencem os grandes missionários que, camuflados em sanyassis e vivendo a vida humilde e austera dos ascetas orientais, conseguiram fazer jorrar nas almas em treva a luz de S. Paulo. Chamam-se Roberto di Nobili, Constantin Beschi, François Laynez e João de Brito.

O nosso domínio temporal está prestes a extinguir-se. Da espada e cruz, que eram as velhas companheiras inseparáveis, a primeira está muda; só a segunda marcha para cumprir a finalidade que a alma de Portugal havia inscrito no seu ideal de conquista desde os tempos do Infante de Sagres.

A morte de João de Brito em terra que nunca foi nossa dá ao Mundo a prova indiscutível de que o ideal da expansão portuguesa no ultramar teve menos por mira o engrandecimento do nosso domínio temporal que a sementeira nas almas da fraternidade cristã universal. No momento que passa é esse o grande significado político da nossa peregrinação a Roma. É, como vos disse, um testemunho e um desafio ao julgamento da Historia!

Ao terceiro marco pertence a recristianização de Ceilão, devida ao zelo apostólico dos meus conterrâneos goeses padre Jácome Gonçalves e o venerando padre José Vaz, justamente chamado pelo povo o apóstolo de Ceilão. Recolhamos a lição que deriva das suas obras: é a semente lançada pêlos missionários de Portugal que revive e frutifica nos corações dos seus discípulos indianos o mesmo zelo, a mesma austeridade, a mesma abnegação em prol da ceifa na vinha do Senhor.

È esse zelo que fará por vezes que os sacerdotes na índia se excedam na sua missão espiritual, fazendo da Igreja de Cristo o sinónimo de Igreja Portuguesa! Ser cristão tornou-se sinónimo de ser português: donde esse milagre de ver, em terras que estando outrora sob a nossa influência já hoje o não estão, os laços espirituais que ainda hoje as ligam ao velho Portugal de que falavam os seus antepassados!

A alma nacional, num sentimento de profunda ternura, soube compreender e perdoar esses excessos. E, pela pena do seu tão prestigioso príncipe religioso, S. E. o Cardeal Cerejeira, exprimiu a um sábio padre indiano que proclamava a necessidade de conhecer as línguas e os costumes nativos para um missionarismo eficaz estas profundas palavras, que merecem registo:

Este método missionário não pode conciliar-se com as concepções imperialistas de nacionalismos estreitos que não vêem na evangelização senão um meio de expansão e de domínio nacional.

Ele nasce da caridade de Cristo. O seu fim é, acima de tudo, a glória de Deus e o bem das almas. Abraça todas as nações e todos os povos. As nações cristãs são as servas de Deus no plano. da Providência. Não lhes é permitido fazer do Senhor um monopólio nacionalista. Servi-l'O é seu dever e honra. Servir-se d'Ele é profanação.

Que a Nação Portuguesa, governantes e governados, medite nessas palavras e faça delas o mote para proclamar perante o Mundo revolto dos nossos dias a igualdade em Cristo de todos os portugueses de aquém e de além-mar. Será a melhor resposta às invectivas de que sobre nós de quando em quando se têm feito eco vozes deselegantes de censores aleivosos ou mal informados.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Duas palavras mais para concluir: essa magnífica demonstração da nossa espiritualidade e do nosso ideal de fraternidade universal não seria possível se não fosse a acção dinâmica de dois homens que é de justiça apontar para a bênção da posteridade: o Ministro capitão Teófilo Duarte e o Presidente Prof. Salazar. O primeiro, multiplicando-se em prodígios de actividade para que as delegações do ultramar tivessem o brilho que tiveram; o segundo, a alma insufladora de todos os eventos da vida nacional que nestes últimos anos se tenham evidenciado perante o Mundo em perspectivas de grandeza a rivalizar com os tempos mais áureos do nosso período seiscentista.

Souberam cercar-se de colaboradores que interpretassem o seu pensamento. Como Deputado da Nação, é meu dever pronunciar os seus nomes, para que no Diário das Sessões fiquem registados para o reconhecimento da grei portuguesa. É a energia incomparável do Dr. Braga Paixão, que o leva a dar solução a todas as dificuldades que tentem empanar o brilho da peregrinação; é a cooperação organizadora do Dr. João de Mendonça e de Eça de Queirós; é o espírito previdente do Rev. Dr. Honorato Monteiro, que com tanto zelo se ocupou da parte religiosa da peregrinação. Mas uma coisa se deve afirmar: não fora a directriz tenaz, persistente, do Prof. Salazar e do Ministro Teófilo Duarte, encorajando todas as iniciativas, vencendo todos os obstáculos, e a nossa peregrinação a Roma não teria o brilho que teve.

Os homens passam, os eventos diluem-se na penumbra da História. Só os grandes ideais permanecem eternos quando insuflados por uma chama de espiritualidade que é a herança imortal da alma humana. É por isso que os nomes do Prof. Salazar e do capitão Teófilo Duarte serão sempre vivos no coração da grei portuguesa, como sendo os de dois iluminados que nestes tempos de deprimente materialismo souberam dar ao Mundo a imagem viva do alto ideal de espiritualidade que em todos os tempos caracterizou a nobreza da alma portuguesa.

Tenho dito.”



publicado por Carlos Gomes às 09:52
link do post | favorito
|

Terça-feira, 13 de Setembro de 2011
O QUE DIZ A TERCEIRA PARTE DO SEGREDO DE FÁTIMA?

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

A MENSAGEM DE FÁTIMA

APRESENTAÇÃO

Na passagem do segundo para o terceiro milénio, o Papa João Paulo II decidiu tornar público o texto da terceira parte do «segredo de Fátima».

Depois dos acontecimentos dramáticos e cruéis do século XX, um dos mais tormentosos da história do homem, com o ponto culminante no cruento atentado ao «doce Cristo na terra », abre-se assim o véu sobre uma realidade que faz história e a interpreta na sua profundidade segundo uma dimensão espiritual, a que é refractária a mentalidade actual, frequentemente eivada de racionalismo.

A história está constelada de aparições e sinais sobrenaturais, que influenciam o desenrolar dos acontecimentos humanos e acompanham o caminho do mundo, surpreendendo crentes e descrentes. Estas manifestações, que não podem contradizer o conteúdo da fé, devem convergir para o objecto central do anúncio de Cristo: o amor do Pai que suscita nos homens a conversão e dá a graça para se abandonarem a Ele com devoção filial. Tal é a mensagem de Fátima, com o seu veemente apelo à conversão e à penitência, que leva realmente ao coração do Evangelho.

Fátima é, sem dúvida, a mais profética das aparições modernas. A primeira e a segunda parte do «segredo», que são publicadas em seguida para ficar completa a documentação, dizem respeito antes de mais à pavorosa visão do inferno, à devoção ao Imaculado Coração de Maria, à segunda guerra mundial, e depois ao prenúncio dos danos imensos que a Rússia, com a sua defecção da fé cristã e adesão ao totalitarismo comunista, haveria de causar à humanidade.

Em 1917, ninguém poderia ter imaginado tudo isto: os três pastorinhos de Fátima vêem, ouvem, memorizam, e Lúcia, a testemunha sobrevivente, quando recebe a ordem do Bispo de Leiria e a autorização de Nossa Senhora, põe por escrito.

Para a exposição das primeiras duas partes do «segredo», aliás já publicadas e conhecidas, foi escolhido o texto escrito pela Irmã Lúcia na terceira memória, de 31 de Agosto de 1941; na quarta memória, de 8 de Dezembro de 1941, ela acrescentará qualquer observação.

A terceira parte do «segredo» foi escrita «por ordem de Sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da (...) Santíssima Mãe», no dia 3 de Janeiro de 1944.

Existe apenas um manuscrito, que é reproduzido aqui fotostaticamente. O envelope selado foi guardado primeiramente pelo Bispo de Leiria. Para se tutelar melhor o «segredo», no dia 4 de Abril de 1957 o envelope foi entregue ao Arquivo Secreto do Santo Ofício. Disto mesmo, foi avisada a Irmã Lúcia pelo Bispo de Leiria.

Segundo apontamentos do Arquivo, no dia 17 de Agosto de 1959 e de acordo com Sua Eminência o Cardeal Alfredo Ottaviani, o Comissário do Santo Ofício, Padre Pierre Paul Philippe OP, levou a João XXIII o envelope com a terceira parte do «segredo de Fátima». Sua Santidade, «depois de alguma hesitação», disse: «Aguardemos. Rezarei. Far-lhe-ei saber o que decidi». (1)

Na realidade, a decisão do Papa João XXIII foi enviar de novo o envelope selado para o Santo Ofício e não revelar a terceira parte do «segredo».

Paulo VI leu o conteúdo com o Substituto da Secretaria de Estado, Sua Ex.cia Rev.ma D. Ângelo Dell'Acqua, a 27 de Março de 1965, e mandou novamente o envelope para o Arquivo do Santo Ofício, com a decisão de não publicar o texto.

João Paulo II, por sua vez, pediu o envelope com a terceira parte do «segredo», após o atentado de 13 de Maio de 1981. Sua Eminência o Cardeal Franjo Seper, Prefeito da Congregação, a 18 de Julho de 1981 entregou a Sua Ex.cia Rev.ma D. Eduardo Martínez Somalo, Substituto da Secretaria de Estado, dois envelopes: um branco, com o texto original da Irmã Lúcia em língua portuguesa; outro cor-de-laranja, com a tradução do «segredo» em língua italiana. No dia 11 de Agosto seguinte, o Senhor D. Martínez Somalo devolveu os dois envelopes ao Arquivo do Santo Ofício. (2)

Como é sabido, o Papa João Paulo II pensou imediatamente na consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e compôs ele mesmo uma oração para o designado «Acto de Entrega», que seria celebrado na Basílica de Santa Maria Maior a 7 de Junho de 1981, solenidade de Pentecostes, dia escolhido para comemorar os 1600 anos do primeiro Concílio Constantinopolitano e os 1550 anos do Concílio de Éfeso. O Papa, forçadamente ausente, enviou uma radiomensagem com a sua alocução. Transcrevemos a parte do texto, onde se refere exactamente o acto de entrega

« Ó Mãe dos homens e dos povos, Vós conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Vós sentis maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o mundo, acolhei o nosso brado, dirigido no Espírito Santo directamente ao vosso Coração, e abraçai com o amor da Mãe e da Serva do Senhor aqueles que mais esperam por este abraço e, ao mesmo tempo, aqueles cuja entrega também Vós esperais de maneira particular. Tomai sob a vossa protecção materna a família humana inteira, que, com enlevo afectuoso, nós Vos confiamos, ó Mãe. Que se aproxime para todos o tempo da paz e da liberdade, o tempo da verdade, da justiça e da esperança». (3)

Mas, para responder mais plenamente aos pedidos de Nossa Senhora, o Santo Padre quis, durante o Ano Santo da Redenção, tornar mais explícito o acto de entrega de 7 de Junho de 1981, repetido em Fátima no dia 13 de Maio de 1982. E, no dia 25 de Março de 1984, quando se recorda o fiat pronunciado por Maria no momento da Anunciação, na Praça de S. Pedro, em união espiritual com todos os Bispos do mundo precedentemente «convocados», o Papa entrega ao Imaculado Coração de Maria os homens e os povos, com expressões que lembram as palavras ardorosas pronunciadas em 1981:

«E por isso, ó Mãe dos homens e dos povos, Vós que conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Vós que sentis maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o mundo contemporâneo, acolhei o nosso clamor que, movidos pelo Espírito Santo, elevamos directamente ao vosso Coração: Abraçai, com amor de Mãe e de Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Vos confiamos e consagramos, cheios de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos.

De modo especial Vos entregamos e consagramos aqueles homens e aquelas nações que desta entrega e desta consagração têm particularmente necessidade.

“À vossa protecção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus”! Não desprezeis as súplicas que se elevam de nós que estamos na provação!».

Depois o Papa continua com maior veemência e concretização de referências, quase comentando a Mensagem de Fátima nas suas predições infelizmente cumpridas:

«Encontrando-nos hoje diante Vós, Mãe de Cristo, diante do vosso Imaculado Coração, desejamos, juntamente com toda a Igreja, unir-nos à consagração que, por nosso amor, o vosso Filho fez de Si mesmo ao Pai: “Eu consagro-Me por eles — foram as suas palavras — para eles serem também consagrados na verdade” (Jo 17, 19). Queremos unir-nos ao nosso Redentor, nesta consagração pelo mundo e pelos homens, a qual, no seu Coração divino, tem o poder de alcançar o perdão e de conseguir a reparação.

A força desta consagração permanece por todos os tempos e abrange todos os homens, os povos e as nações; e supera todo o mal, que o espírito das trevas é capaz de despertar no coração do homem e na sua história e que, de facto, despertou nos nossos tempos.

Oh quão profundamente sentimos a necessidade de consagração pela humanidade e pelo mundo: pelo nosso mundo contemporâneo, em união com o próprio Cristo! Na realidade, a obra redentora de Cristo deve ser participada pelo mundo por meio da Igreja.

Manifesta-o o presente Ano da Redenção: o Jubileu extraordinário de toda a Igreja.

Neste Ano Santo, bendita sejais acima de todas as criaturas Vós, Serva do Senhor, que obedecestes da maneira mais plena ao chamamento Divino!

Louvada sejais Vós, que estais inteiramente unida à consagração redentora do vosso Filho!

Mãe da Igreja! Iluminai o Povo de Deus nos caminhos da fé, da esperança e da caridade! Iluminai de modo especial os povos dos quais Vós esperais a nossa consagração e a nossa entrega. Ajudai-nos a viver na verdade da consagração de Cristo por toda a família humana do mundo contemporâneo.

Confiando-Vos, ó Mãe, o mundo, todos os homens e todos os povos, nós Vos confiamos também a própria consagração do mundo, depositando-a no vosso Coração materno.

Oh Imaculado Coração! Ajudai-nos a vencer a ameaça do mal, que se enraíza tão facilmente nos corações dos homens de hoje e que, nos seus efeitos incomensuráveis, pesa já sobre a vida presente e parece fechar os caminhos do futuro!

Da fome e da guerra, livrai-nos!

Da guerra nuclear, de uma autodestruição incalculável, e de toda a espécie de guerra, livrai-nos!

Dos pecados contra a vida do homem desde os seus primeiros instantes, livrai-nos!

Do ódio e do aviltamento da dignidade dos filhos de Deus, livrai-nos!

De todo o género de injustiça na vida social, nacional e internacional, livrai-nos!

Da facilidade em calcar aos pés os mandamentos de Deus, livrai-nos!

Da tentativa de ofuscar nos corações humanos a própria verdade de Deus, livrai-nos!

Da perda da consciência do bem e do mal, livrai-nos!

Dos pecados contra o Espírito Santo, livrai-nos, livrai-nos!

Acolhei, ó Mãe de Cristo, este clamor carregado do sofrimento de todos os homens! Carregado do sofrimento de sociedades inteiras!

Ajudai-nos com a força do Espírito Santo a vencer todo o pecado: o pecado do homem e o “pecado do mundo”, enfim o pecado em todas as suas manifestações.

Que se revele uma vez mais, na história do mundo, a força salvífica infinita da Redenção: a força do Amor misericordioso! Que ele detenha o mal! Que ele transforme as consciências! Que se manifeste para todos, no vosso Imaculado Coração, a luz da Esperança!». (4)

A Irmã Lúcia confirmou pessoalmente que este acto, solene e universal, de consagração correspondia àquilo que Nossa Senhora queria: «Sim, está feita tal como Nossa Senhora a pediu, desde o dia 25 de Março de 1984» (carta de 8 de Novembro de 1989). Por isso, qualquer discussão e ulterior petição não tem fundamento.

Na documentação apresentada, para além das páginas manuscritas da Irmã Lúcia inserem-se mais quatro textos: 1) A carta do Santo Padre à Irmã Lúcia, datada de 19 de Abril de 2000; 2) Uma descrição do colóquio que houve com a Irmã Lúcia no dia 27 de Abril de 2000; 3) A comunicação lida, por encargo do Santo Padre, por Sua Eminência o Cardeal Ângelo Sodano, Secretário de Estado, em Fátima no dia 13 de Maio deste ano; 4) O comentário teológico de Sua Eminência o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Uma orientação para a interpretação da terceira parte do «segredo» tinha sido já oferecida pela Irmã Lúcia, numa carta dirigida ao Santo Padre a 12 de Maio de 1982, onde dizia:

«A terceira parte do segredo refere-se às palavras de Nossa Senhora: “Se não, [a Rússia] espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas” (13-VII-1917).

A terceira parte do segredo é uma revelação simbólica, que se refere a este trecho da Mensagem, condicionada ao facto de aceitarmos ou não o que a Mensagem nos pede: “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, etc”.

Porque não temos atendido a este apelo da Mensagem, verificamos que ela se tem cumprido, a Rússia foi invadindo o mundo com os seus erros. E se não vemos ainda, como facto consumado, o final desta profecia, vemos que para aí caminhamos a passos largos. Se não recuarmos no caminho do pecado, do ódio, da vingança, da injustiça atropelando os direitos da pessoa humana, da imoralidade e da violência, etc. 

E não digamos que é Deus que assim nos castiga; mas, sim, que são os homens que para si mesmos se preparam o castigo. Deus apenas nos adverte e chama ao bom caminho, respeitando a liberdade que nos deu; por isso os homens são responsáveis». (5)

A decisão tomada pelo Santo Padre João Paulo II de tornar pública a terceira parte do «segredo» de Fátima encerra um pedaço de história, marcado por trágicas veleidades humanas de poder e de iniquidade, mas permeada pelo amor misericordioso de Deus e pela vigilância cuidadosa da Mãe de Jesus e da Igreja.

Acção de Deus, Senhor da história, e corresponsabilidade do homem, no exercício dramático e fecundo da sua liberdade, são os dois alicerces sobre os quais se constrói a história da humanidade.

Ao aparecer em Fátima, Nossa Senhora faz-nos apelo a estes valores esquecidos, a este futuro do homem em Deus, do qual somos parte activa e responsável.

Tarcisio Bertone, SDB 

Arcebispo emérito de Vercelli 

Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé

O «SEGREDO» DE FÁTIMA 

PRIMEIRA E SEGUNDA PARTE DO «SEGREDO» SEGUNDO A REDACÇÃO FEITA PELA IRMÃ LÚCIA NA «TERCEIRA MEMÓRIA», DE 31 DE AGOSTO DE 1941, DESTINADA AO BISPO DE LEIRIA-FÁTIMA

(texto original)

 capture1

capture2

(transcrição) (6)

Terei para isso que falar algo do segredo e responder ao primeiro ponto de interrogação.

O que é o segredo?

Parece-me que o posso dizer, pois que do Céu tenho já a licença. Os representantes de Deus na terra, têm-me autorizado a isso várias vezes, e em várias cartas, uma das quais, julgo que conserva V. Ex.cia Rev.ma do Senhor Padre José Bernardo Gonçalves, na em que me manda escrever ao Santo Padre. Um dos pontos que me indica é a revelação do segredo. Algo disse, mas para não alongar mais esse escrito que devia ser breve, limitei-me ao indispensável, deixando a Deus a oportunidade d'um momento mais favorável.

Expus já no segundo escrito a dúvida que de 13 de Junho a 13 de Julho me atormentou e que n'essa aparição tudo se desvaneceu.

Bem o segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar.

A primeira foi pois a vista do inferno!

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fôgo que parcia estar debaixo da terra. Mergulhados em êsse fôgo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronziadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que d'elas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faulhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dôr e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios destinguiam-se por formas horríveis e ascrosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa bôa Mãe do Céu; que antes nos tinha prevenido com a promeça de nos levar para o Céu (na primeira aparição) se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.

Em seguida, levantámos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza:

— Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores, para as salvar, Deus quer establecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra peor. Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sufrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será consedido ao mundo algum tempo de paz. (7)

TERCEIRA PARTE DO «SEGREDO»

(texto original)

capture4

capture5

capture6

capture8

(transcrição) (8)

J.M.J.

A terceira parte do segredo revelado a 13 de Julho de 1917 na Cova da Iria-Fátima. 

Escrevo em acto de obediência a Vós Deus meu, que mo mandais por meio de sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da Vossa e minha Santíssima Mãe.

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n'uma luz emensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Varios outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproximavam de Deus.

Tuy-3-1-1944 »

INTERPRETAÇÃO DO «SEGREDO»

CARTA DE JOÃO PAULO II

À IRMÃ LÚCIA

(texto original)

capture9

capture10

COLÓQUIO

COM A IRMÃ MARIA LÚCIA DE JESUS

E DO CORAÇÃO IMACULADO

O encontro da Irmã Lúcia com Sua Ex.cia Rev.ma D. Tarcisio Bertone, Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, por encargo recebido do Santo Padre, e Sua Ex.cia Rev.ma D. Serafim de Sousa Ferreira e Silva, Bispo de Leiria-Fátima, teve lugar a 27 de Abril passado (uma quinta-feira), no Carmelo de Santa Teresa em Coimbra.

A Irmã Lúcia estava lúcida e calma, dizendo-se muito feliz com a ida do Santo Padre a Fátima para a Beatificação de Francisco e Jacinta, há muito desejada por ela.

O Bispo de Leiria-Fátima leu a carta autógrafa do Santo Padre, que explicava os motivos da visita. A Irmã Lúcia disse sentir-se muito honrada, e releu pessoalmente a carta comprazendo-se por vê-la nas suas próprias mãos. Declarou-se disposta a responder francamente a todas as perguntas.

Então, o Senhor D. Tarcisio Bertone apresenta-lhe dois envelopes: um exterior que tinha dentro outro com a carta onde estava a terceira parte do «segredo» de Fátima. Tocando esta segunda com os dedos, logo exclamou: «É a minha carta», e, depois de a ler, acrescentou: «É a minha letra».

Com o auxílio do Bispo de Leiria-Fátima, foi lido e interpretado o texto original, que é em língua portuguesa. A Irmã Lúcia concorda com a interpretação segundo a qual a terceira parte do «segredo» consiste numa visão profética, comparável às da história sagrada. Ela reafirma a sua convicção de que a visão de Fátima se refere sobretudo à luta do comunismo ateu contra a Igreja e os cristãos, e descreve o imane sofrimento das vítimas da fé no século XX.

À pergunta: «A personagem principal da visão é o Papa?», a Irmã Lúcia responde imediatamente que sim e recorda como os três pastorinhos sentiam muita pena pelo sofrimento do Papa e Jacinta repetia: «Coitadinho do Santo Padre. Tenho muita pena dos pecadores!» A Irmã Lúcia continua: «Não sabíamos o nome do Papa; Nossa Senhora não nos disse o nome do Papa. Não sabíamos se era Bento XV, Pio XII, Paulo VI ou João Paulo II, mas que era o Papa que sofria e isso fazia-nos sofrer a nós também».

Quanto à passagem relativa ao Bispo vestido de branco, isto é, ao Santo Padre — como logo perceberam os pastorinhos durante a «visão» — que é ferido de morte e cai por terra, a irmã Lúcia concorda plenamente com a afirmação do Papa: «Foi uma mão materna que guiou a trajectória da bala e o Santo Padre agonizante deteve-se no limiar da morte» (João Paulo II, Meditação com os Bispos Italianos, a partir da Policlínica Gemelli, 13 de Maio de 1994).

Uma vez que a Irmã Lúcia, antes de entregar ao Bispo de Leiria-Fátima de então o envelope selado com a terceira parte do «segredo», tinha escrito no envelope exterior que podia ser aberto somente depois de 1960 pelo Patriarca de Lisboa ou pelo Bispo de Leiria, o Senhor D. Bertone pergunta-lhe: «Porquê o limite de 1960? Foi Nossa Senhora que indicou aquela data?». Resposta da Irmã Lúcia: «Não foi Nossa Senhora; fui eu que meti a data de 1960 porque, segundo intuição minha, antes de 1960 não se perceberia, compreender-se-ia somente depois. Agora pode-se compreender melhor. Eu escrevi o que vi; não compete a mim a interpretação, mas ao Papa».

Por último, alude-se ao manuscrito, não publicado, que a Irmã Lúcia preparou para dar resposta a tantas cartas de devotos e peregrinos de Nossa Senhora. A obra intitula-se «Os apelos da Mensagem de Fátima», e contém pensamentos e reflexões que exprimem, em chave catequética e parenética, os seus sentimentos e espiritualidade cândida e simples. Perguntou-se-lhe se gostava que fosse publicado, ao que a Irmã Lúcia respondeu: «Se o Santo Padre estiver de acordo, eu fico contente; caso contrário, obedeço àquilo que decidir o Santo Padre». A Irmã Lúcia deseja sujeitar o texto à aprovação da Autoridade Eclesiástica, esperando que o seu escrito possa contribuir para guiar os homens e mulheres de boa vontade no caminho que conduz a Deus, meta última de todo o anseio humano.

O colóquio termina com uma troca de terços: à Irmã Lúcia foi dado o terço oferecido pelo Santo Padre, e ela, por sua vez, entrega alguns terços confeccionados pessoalmente por ela.

A Bênção, concedida em nome do Santo Padre, concluiu o encontro.

 

COMUNICAÇÃO DE SUA EMINÊNCIA

O CARD. ÂNGELO SODANO

SECRETÁRIO DE ESTADO DE SUA SANTIDADE

No final da solene Concelebração Eucarística presidida por João Paulo II em Fátima, o Cardeal Ângelo Sodano, Secretário de Estado, pronunciou em português as palavras seguintes:

Irmãos e irmãs no Senhor!

No termo desta solene celebração, sinto o dever de apresentar ao nosso amado Santo Padre João Paulo II os votos mais cordiais de todos os presentes pelo seu próximo octogésimo aniversário natalício, agradecidos pelo seu precioso ministério pastoral em benefício de toda a Santa Igreja de Deus.

Na circunstância solene da sua vinda a Fátima, o Sumo Pontífice incumbiu-me de vos comunicar uma notícia. Como é sabido, a finalidade da vinda do Santo Padre a Fátima é a beatificação dos dois Pastorinhos. Contudo Ele quer dar a esta sua peregrinação também o valor de um renovado preito de gratidão a Nossa Senhora pela protecção que Ela Lhe tem concedido durante estes anos de pontificado. É uma protecção que parece ter a ver também com a chamada terceira parte do «segredo» de Fátima.

Tal texto constitui uma visão profética comparável às da Sagrada Escritura, que não descrevem de forma fotográfica os detalhes dos acontecimentos futuros, mas sintetizam e condensam sobre a mesma linha de fundo factos que se prolongam no tempo numa sucessão e duração não especificadas. Em consequência, a chave de leitura do texto só pode ser de carácter simbólico.

A visão de Fátima refere-se sobretudo à luta dos sistemas ateus contra a Igreja e os cristãos e descreve o sofrimento imane das testemunhas da fé do último século do segundo milénio. É uma Via Sacra sem fim, guiada pelos Papas do século vinte.

Segundo a interpretação dos pastorinhos, interpretação confirmada ainda recentemente pela Irmã Lúcia, o «Bispo vestido de branco» que reza por todos os fiéis é o Papa. Também Ele, caminhando penosamente para a Cruz por entre os cadáveres dos martirizados (bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e várias pessoas seculares), cai por terra como morto sob os tiros de uma arma de fogo.

Depois do atentado de 13 de Maio de 1981, pareceu claramente a Sua Santidade que foi «uma mão materna a guiar a trajectória da bala », permitindo que o « Papa agonizante » se detivesse « no limiar da morte » [João Paulo II, Meditação com os Bispos Italianos, a partir da Policlínica Gemelli, em:  Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XVII-1 (Città del Vaticano 1994), 1061]. Certa ocasião em que o Bispo de Leiria-Fátima de então passara por Roma, o Papa decidiu entregar-lhe a bala que tinha ficado no jeep depois do atentado, para ser guardada no Santuário. Por iniciativa do Bispo, essa bala foi depois encastoada na coroa da imagem de Nossa Senhora de Fátima.

Depois, os acontecimentos de 1989 levaram, quer na União Soviética quer em numerosos Países do Leste, à queda do regime comunista que propugnava o ateísmo. O Sumo Pontífice agradece do fundo do coração à Virgem Santíssima também por isso. Mas, noutras partes do mundo, os ataques contra a Igreja e os cristãos, com a carga de sofrimento que eles provocam, infelizmente não cessaram. Embora os acontecimentos a que faz referência a terceira parte do «segredo» de Fátima pareçam pertencer já ao passado, o apelo à conversão e à penitência, manifestado por Nossa Senhora ao início do século vinte, conserva ainda hoje uma estimulante actualidade. «A Senhora da Mensagem parece ler com uma perspicácia singular os sinais dos tempos, os sinais do nosso tempo. (...) O convite insistente de Maria Santíssima à penitência não é senão a manifestação da sua solicitude materna pelos destinos da família humana, necessitada de conversão e de perdão» [João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial do Doente - 1997, n. 1, em: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XIX‑2 (Città del Vaticano 1996), 561].

Para consentir que os fiéis recebam melhor a mensagem da Virgem de Fátima, o Papa confiou à Congregação para a Doutrina da Fé o encargo de tornar pública a terceira parte do «segredo», depois de lhe ter preparado um adequado comentário.

Irmãos e irmãs, damos graças a Nossa Senhora de Fátima pela sua protecção. Confiamos à sua materna intercessão a Igreja do Terceiro Milénio.

Sub tuum præsidium confugimus, Sancta Dei Genetrix! Intercede pro Ecclesia. Intercede pro Papa nostro Ioanne Paulo II. Amen. 

Fátima, 13 de Maio de 2000.

COMENTÁRIO TEOLÓGICO

Quem lê com atenção o texto do chamado terceiro « segredo » de Fátima, que depois de longo tempo, por disposição do Santo Padre, é aqui publicado integralmente, ficará presumivelmente desiludido ou maravilhado depois de todas as especulações que foram feitas. Não é revelado nenhum grande mistério; o véu do futuro não é rasgado. Vemos a Igreja dos mártires deste século que está para findar, representada através duma cena descrita numa linguagem simbólica de difícil decifração. É isto o que a Mãe do Senhor queria comunicar à cristandade, à humanidade num tempo de grandes problemas e angústias? Serve-nos de ajuda no início do novo milénio? Ou não serão talvez apenas projecções do mundo interior de crianças, crescidas num ambiente de profunda piedade, mas simultaneamente assustadas pelas tempestades que ameaçavam o seu tempo? Como devemos entender a visão, o que pensar dela?

Revelação pública e revelações privadas – o seu lugar teológico

 Antes de encetar uma tentativa de interpretação, cujas linhas essenciais podem encontrar-se na comunicação que o Cardeal Sodano pronunciou, no dia 13 de Maio deste ano, no fim da Celebração Eucarística presidida pelo Santo Padre em Fátima, é necessário dar alguns esclarecimentos básicos sobre o modo como, segundo a doutrina da Igreja, devem ser compreendidos no âmbito da vida de fé fenómenos como o de Fátima. A doutrina da Igreja distingue «revelação pública» e «revelações privadas»; entre as duas realidades existe uma diferença essencial, e não apenas de grau. A noção «revelação pública» designa a acção reveladora de Deus que se destina à humanidade inteira e está expressa literariamente nas duas partes da Bíblia: o Antigo e o Novo Testamento. Chama-se «revelação», porque nela Deus Se foi dando a conhecer progressivamente aos homens, até ao ponto de Ele mesmo Se tornar homem, para atrair e reunir em Si próprio o mundo inteiro por meio do Filho encarnado, Jesus Cristo. Não se trata, portanto, de comunicações intelectuais, mas de um processo vital em que Deus Se aproxima do homem; naturalmente nesse processo, depois aparecem também conteúdos que têm a ver com a inteligência e a compreensão do mistério de Deus. Tal processo envolve o homem inteiro e, por conseguinte, também a razão, mas não só ela. Uma vez que Deus é um só, também a história que Ele vive com a humanidade é única, vale para todos os tempos e encontrou a sua plenitude com a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Por outras palavras, em Cristo Deus disse tudo de Si mesmo, e portanto a revelação ficou concluída com a realização do mistério de Cristo, expresso no Novo Testamento. O Catecismo da Igreja Católica, para explicar este carácter definitivo e pleno da revelação, cita o seguinte texto de S. João da Cruz: «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra — e não tem outra —, Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única (...) porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d'Ele outra realidade ou novidade» (CIC, n. 65; S. João da Cruz, A Subida do Monte Carmelo, II, 22).

O facto de a única revelação de Deus destinada a todos os povos ter ficado concluída com Cristo e o testemunho que d'Ele nos dão os livros do Novo Testamento vincula a Igreja com o acontecimento único que é a história sagrada e a palavra da Bíblia, que garante e interpreta tal acontecimento, mas não significa que agora a Igreja pode apenas olhar para o passado, ficando assim condenada a uma estéril repetição. Eis o que diz o Catecismo da Igreja Católica: « No entanto, apesar de a Revelação ter acabado, não quer dizer que esteja completamente explicitada. E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance no decorrer dos séculos » (n. 66). Estes dois aspectos — o vínculo com a unicidade do acontecimento e o progresso na sua compreensão — estão optimamente ilustrados nos discursos de despedida do Senhor, quando Ele declara aos discípulos: «Ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Espírito da Verdade, Ele guiar-vos-á para a verdade total, porque não falará de Si mesmo (...) Ele glorificar-Me-á, porque há-de receber do que é meu, para vo-lo anunciar» (Jo 16, 12-14). Por um lado, o Espírito serve de guia, desvendando assim um conhecimento cuja densidade não se podia alcançar antes porque faltava o pressuposto, ou seja, o da amplidão e profundidade da fé cristã, e que é tal que não estará concluída jamais. Por outro lado, esse acto de guiar é «receber» do tesouro do próprio Jesus Cristo, cuja profundidade inexaurível se manifesta nesta condução por obra do Espírito. A propósito disto, o Catecismo cita uma densa frase do Papa Gregório Magno: «As palavras divinas crescem com quem as lê» (CIC, n. 94; S. Gregório Magno, Homilia sobre Ezequiel 1, 7, 8). O Concílio Vaticano II indica três caminhos essenciais, através dos quais o Espírito Santo efectua a sua guia da Igreja e, consequentemente, o «crescimento da Palavra»: realiza‑se por meio da meditação e estudo dos fiéis, por meio da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, e por meio da pregação daqueles «que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade» (Dei Verbum, n. 8).

Neste contexto, torna-se agora possível compreender correctamente o conceito de «revelação privada», que se aplica a todas as visões e revelações verificadas depois da conclusão do Novo Testamento; nesta categoria, portanto, se deve colocar a mensagem de Fátima. Ouçamos o que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre isto também: «No decurso dos séculos tem havido revelações ditas “privadas”, algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. (...) O seu papel não é (...) “completar” a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente numa determinada época da história» (n. 67). Isto deixa claro duas coisas:

1. A autoridade das revelações privadas é essencialmente diversa da única revelação pública: esta exige a nossa fé; de facto, nela, é o próprio Deus que nos fala por meio de palavras humanas e da mediação da comunidade viva da Igreja. A fé em Deus e na sua Palavra é distinta de qualquer outra fé, crença, opinião humana. A certeza de que é Deus que fala, cria em mim a segurança de encontrar a própria verdade; uma certeza assim não se pode verificar em mais nenhuma forma humana de conhecimento. É sobre tal certeza que edifico a minha vida e me entrego ao morrer.

2. A revelação privada é um auxílio para esta fé, e manifesta-se credível precisamente porque faz apelo à única revelação pública. O Cardeal Próspero Lambertini, mais tarde Papa Bento XIV, afirma a tal propósito num tratado clássico, que se tornou normativo a propósito das beatificações e canonizações: «A tais revelações aprovadas não é devida uma adesão de fé católica; nem isso é possível. Estas revelações requerem, antes, uma adesão de fé humana ditada pelas regras da prudência, que no-las apresentam como prováveis e religiosamente credíveis». O teólogo flamengo E. Dhanis, eminente conhecedor desta matéria, afirma sinteticamente que a aprovação eclesial duma revelação privada contém três elementos: que a respectiva mensagem não contém nada em contraste com a fé e os bons costumes, que é lícito torná-la pública, e que os fiéis ficam autorizados a prestar-lhe de forma prudente a sua adesão [E. Dhanis, Sguardo su Fatima e bilancio di una discussione, em: La Civiltà Cattolica, CIV (1953-II), 392-406, especialmente 397]. Tal mensagem pode ser um válido auxílio para compreender e viver melhor o Evangelho na hora actual; por isso, não se deve transcurar. É uma ajuda que é oferecida, mas não é obrigatório fazer uso dela.

Assim, o critério para medir a verdade e o valor duma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo. Quando se afasta d'Ele, quando se torna autónoma ou até se faz passar por outro desígnio de salvação, melhor e mais importante que o Evangelho, então ela certamente não provém do Espírito Santo, que nos guia no âmbito do Evangelho e não fora dele. Isto não exclui que uma revelação privada realce novos aspectos, faça surgir formas de piedade novas ou aprofunde e divulgue antigas. Mas, em tudo isso, deve tratar-se sempre de um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são, para todos, o caminho permanente da salvação. Podemos acrescentar que frequentemente as revelações privadas provêm da piedade popular e nela se reflectem, dando-lhe novo impulso e suscitando formas novas. Isto não exclui que aquelas tenham influência também na própria liturgia, como o demonstram por exemplo a festa do Corpo de Deus e a do Sagrado Coração de Jesus. Numa determinada perspectiva, pode-se afirmar que, na relação entre liturgia e piedade popular, está delineada a relação entre revelação pública e revelações privadas: a liturgia é o critério, a forma vital da Igreja no seu conjunto alimentada directamente pelo Evangelho. A religiosidade popular significa que a fé cria raízes no coração dos diversos povos, entrando a fazer parte do mundo da vida quotidiana. A religiosidade popular é a primeira e fundamental forma de «inculturação» da fé, que deve continuamente deixar-se orientar e guiar pelas indicações da liturgia, mas que, por sua vez, a fecunda a partir do coração.

Desta forma, passámos já das especificações mais negativas, e que eram primariamente necessárias, à definição positiva das revelações privadas: Como podem classificar-se de modo correcto a partir da Escritura? Qual é a sua categoria teológica? A carta mais antiga de S. Paulo que nos foi conservada e que é também o mais antigo escrito do Novo Testamento, a primeira Carta aos Tessalonicenses, parece-me oferecer uma indicação. Lá, diz o Apóstolo: «Não extingais o Espírito, não desprezeis as profecias. Examinai tudo e retende o que for bom» (5, 19-21). Em todo o tempo é dado à Igreja o carisma da profecia, que, embora tenha de ser examinado, não pode ser desprezado. A este propósito, é preciso ter presente que a profecia, no sentido da Bíblia, não significa predizer o futuro, mas aplicar a vontade de Deus ao tempo presente e consequentemente mostrar o recto caminho do futuro. Aquele que prediz o futuro pretende satisfazer a curiosidade da razão, que deseja rasgar o véu que esconde o futuro; o profeta vem em ajuda da cegueira da vontade e do pensamento, ilustrando a vontade de Deus enquanto exigência e indicação para o presente. Neste caso, a predição do futuro tem uma importância secundária; o essencial é a actualização da única revelação, que me diz respeito profundamente: a palavra profética ora é advertência ora consolação, ou então as duas coisas ao mesmo tempo. Neste sentido, pode-se relacionar o carisma da profecia com a noção «sinais do tempo», redescoberta pelo Vaticano II: «Sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como é que não sabeis interpretar o tempo presente?» (Lc 12, 56). Por «sinais do tempo», nesta palavra de Jesus, deve-se entender o seu próprio caminho, Ele mesmo. Interpretar os sinais do tempo à luz da fé significa reconhecer a presença de Cristo em cada período de tempo. Nas revelações privadas reconhecidas pela Igreja — e portanto na de Fátima —, trata-se disto mesmo: ajudar-nos a compreender os sinais do tempo e a encontrar na fé a justa resposta para os mesmos.

A estrutura antropológica das revelações privadas

Tendo nós procurado, com estas reflexões, determinar o lugar teológico das revelações privadas, devemos agora, ainda antes de nos lançarmos numa interpretação da mensagem de Fátima, esclarecer, embora brevemente, o seu carácter antropológico (psicológico). A antropologia teológica distingue, neste âmbito, três formas de percepção ou «visão»: a visão pelos sentidos, ou seja, a percepção externa corpórea; a percepção interior; e a visão espiritual (visio sensibilis, imaginativa, intellectualis). É claro que, nas visões de Lourdes, Fátima, etc, não se trata da percepção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram fora no espaço circundante, como está lá, por exemplo, uma árvore ou uma casa. Isto é bem evidente, por exemplo, no caso da visão do inferno (descrita na primeira parte do «segredo» de Fátima) ou então na visão descrita na terceira parte do «segredo», mas pode-se facilmente comprovar também noutras visões, sobretudo porque não eram captadas por todos os presentes, mas apenas pelos «videntes». De igual modo, é claro que não se trata duma «visão» intelectual sem imagens, como acontece nos altos graus da mística. Trata-se, portanto, da categoria intermédia, a percepção interior que, para o vidente, tem uma força de presença tal que equivale à manifestação externa sensível.

Este ver interiormente não significa que se trata de fantasia, que seria apenas uma expressão da imaginação subjectiva. Significa, antes, que a alma recebe o toque suave de algo real mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não-visível aos sentidos: uma visão através dos «sentidos internos». Trata-se de verdadeiros «objectos» que tocam a alma, embora não pertençam ao mundo sensível que nos é habitual. Por isso, exige-se uma vigilância interior do coração que, na maior parte do tempo, não possuímos por causa da forte pressão das realidades externas e das imagens e preocupações que enchem a alma. A pessoa é levada para além da pura exterioridade, onde é tocada por dimensões mais profundas da realidade que se lhe tornam visíveis. Talvez assim se possa compreender por que motivo os destinatários preferidos de tais aparições sejam precisamente as crianças: a sua alma ainda está pouco alterada, e quase intacta a sua capacidade interior de percepção. «Da boca dos pequeninos e das crianças de peito recebeste louvor»: esta foi a resposta de Jesus — servindo-se duma frase do Salmo 8 (v. 3) — à crítica dos sumos sacerdotes e anciãos, que achavam inoportuno o grito hossana das crianças (Mt 21, 16).

Como dissemos, a « visão interior » não é fantasia, mas uma verdadeira e própria maneira de verificação. Fá-lo, porém, com as limitações que lhe são próprias. Se, na visão exterior, já interfere o elemento subjectivo, isto é, não vemos o objecto puro mas este chega-nos através do filtro dos nossos sentidos que têm de operar um processo de tradução; na visão interior, isso é ainda mais claro, sobretudo quando se trata de realidades que por si mesmas ultrapassam o nosso horizonte. O sujeito, o vidente, tem uma influência ainda mais forte; vê segundo as próprias capacidades concretas, com as modalidades de representação e conhecimento que lhe são acessíveis. Na visão interior, há, de maneira ainda mais acentuada que na exterior, um processo de tradução, desempenhando o sujeito uma parte essencial na formação da imagem daquilo que aparece. A imagem pode ser captada apenas segundo as suas medidas e possibilidades. Assim, tais visões não são em caso algum a «fotografia» pura e simples do Além, mas trazem consigo também as possibilidades e limitações do sujeito que as apreende.

Isto é patente em todas as grandes visões dos Santos; naturalmente vale também para as visões dos pastorinhos de Fátima. As imagens por eles delineadas não são de modo algum mera expressão da sua fantasia, mas fruto duma percepção real de origem superior e íntima; nem se hão-de imaginar como se por um instante se tivesse erguido a ponta do véu do Além, aparecendo o Céu na sua essencialidade pura, como esperamos vê-lo na união definitiva com Deus. Poder-se-ia dizer que as imagens são uma síntese entre o impulso vindo do Alto e as possibilidades disponíveis para o efeito por parte do sujeito que as recebe, isto é, das crianças. Por tal motivo, a linguagem feita de imagens destas visões é uma linguagem simbólica. Sobre isto, diz o Cardeal Sodano: «Não descrevem de forma fotográfica os detalhes dos acontecimentos futuros, mas sintetizam e condensam sobre a mesma linha de fundo factos que se prolongam no tempo numa sucessão e duração não especificadas». Esta sobreposição de tempos e espaços numa única imagem é típica de tais visões, que, na sua maioria, só podem ser decifradas a posteriori. E não é necessário que cada elemento da visão tenha de possuir uma correspondência histórica concreta. O que conta é a visão como um todo, e a partir do conjunto das imagens é que se devem compreender os detalhes. O que efectivamente constitui o centro duma imagem só pode ser desvendado, em última análise, a partir do que é o centro absoluto da «profecia» cristã: o centro é o ponto onde a visão se torna apelo e indicação da vontade de Deus.

Uma tentativa de interpretação do «segredo» de Fátima 

A primeira e a segunda parte do «segredo» de Fátima foram já discutidas tão amplamente por específicas publicações, que não necessitam de ser ilustradas novamente aqui. Queria apenas chamar brevemente a atenção para o ponto mais significativo. Os pastorinhos experimentaram, durante um instante terrível, uma visão do inferno. Viram a queda das «almas dos pobres pecadores». Em seguida, foi-lhes dito o motivo pelo qual tiveram de passar por esse instante: para «salvá-las» — para mostrar um caminho de salvação. Isto faz-nos recordar uma frase da primeira Carta de Pedro que diz: «Estais certos de obter, como prémio da vossa fé, a salvação das almas» (1, 9). Como caminho para se chegar a tal objectivo, é indicado de modo surpreendente para pessoas originárias do ambiente cultural anglo-saxónico e germânico - a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Para compreender isto, deveria bastar uma breve explicação. O termo «coração», na linguagem da Bíblia, significa o centro da existência humana, uma confluência da razão, vontade, temperamento e sensibilidade, onde a pessoa encontra a sua unidade e orientação interior. O «coração imaculado» é, segundo o evangelho de Mateus (5, 8), um coração que a partir de Deus chegou a uma perfeita unidade interior e, consequentemente, « vê a Deus ». Portanto, «devoção» ao Imaculado Coração de Maria é aproximar-se desta atitude do coração, na qual o fiat — «seja feita a vossa vontade» — se torna o centro conformador de toda a existência. Se porventura alguém objectasse que não se deve interpor um ser humano entre nós e Cristo, lembre-se de que Paulo não tem medo de dizer às suas comunidades: «Imitai-me» (cf. 1 Cor 4, 16; Fil 3, 17; 1 Tes 1, 6; 2 Tes 3, 7.9). No Apóstolo, elas podem verificar concretamente o que significa seguir Cristo. Mas, com quem poderemos nós aprender sempre melhor do que com a Mãe do Senhor?

  

Chegamos assim finalmente à terceira parte do «segredo» de Fátima, publicado aqui pela primeira vez integralmente. Como resulta da documentação anterior, a interpretação dada pelo Cardeal Sodano, no seu texto do dia 13 de Maio, tinha antes sido apresentada pessoalmente à Irmã Lúcia. A tal propósito, ela começou por observar que lhe foi dada a visão, mas não a sua interpretação. A interpretação, dizia, não compete ao vidente, mas à Igreja. No entanto, depois da leitura do texto, a Irmã Lúcia disse que tal interpretação corresponde àquilo que ela mesma tinha sentido e que, pela sua parte, reconhecia essa interpretação como correcta. Sendo assim, limitar-nos-emos, naquilo que vem a seguir, a dar de forma profunda um fundamento à referida interpretação, partindo dos critérios anteriormente desenvolvidos.

Do mesmo modo que tínhamos indentificado, como palavra-chave da primeira e segunda parte do «segredo», a frase «salvar as almas», assim agora a palavra-chave desta parte do «segredo» é o tríplice grito: «Penitência, Penitência, Penitência!» Volta-nos ao pensamento o início do Evangelho: «Pænitemini et credite evangelio» (Mc 1, 15). Perceber os sinais do tempo significa compreender a urgência da penitência, da conversão, da fé. Tal é a resposta justa a uma época histórica caracterizada por grandes perigos, que serão delineados nas sucessivas imagens. Deixo aqui uma recordação pessoal: num colóquio que a Irmã Lúcia teve comigo, ela disse-me que lhe parecia cada vez mais claramente que o objectivo de todas as aparições era fazer crescer sempre mais na fé, na esperança e na caridade; tudo o mais pretendia apenas levar a isso.

Examinemos agora mais de perto as diversas imagens. O anjo com a espada de fogo à esquerda da Mãe de Deus lembra imagens análogas do Apocalipse: ele representa a ameaça do juízo que pende sobre o mundo. A possibilidade que este acabe reduzido a cinzas num mar de chamas, hoje já não aparece de forma alguma como pura fantasia: o próprio homem preparou, com suas invenções, a espada de fogo. Em seguida, a visão mostra a força que se contrapõe ao poder da destruição: o brilho da Mãe de Deus e, de algum modo proveniente do mesmo, o apelo à penitência. Deste modo, é sublinhada a importância da liberdade do homem: o futuro não está de forma alguma determinado imutavelmente, e a imagem vista pelos pastorinhos não é, absolutamente, um filme antecipado do futuro, do qual já nada se poderia mudar. Na realidade, toda a visão acontece só para chamar em campo a liberdade e orientá-la numa direcção positiva. O sentido da visão não é, portanto, o de mostrar um filme sobre o futuro, já fixo irremediavelmente; mas exactamente o contrário: o seu sentido é mobilizar as forças da mudança em bem. Por isso, há que considerar completamente extraviadas aquelas explicações fatalistas do «segredo» que dizem, por exemplo, que o autor do atentado de 13 de Maio de 1981 teria sido, em última análise, um instrumento do plano divino predisposto pela Providência e, por conseguinte, não poderia ter agido livremente, ou outras ideias semelhantes que por aí andam. A visão fala sobretudo de perigos e do caminho para salvar-se deles.

As frases seguintes do texto mostram uma vez mais e de forma muito clara o carácter simbólico da visão: Deus permanece o incomensurável e a luz que está para além de qualquer visão nossa. As pessoas humanas são vistas como que num espelho. Devemos ter continuamente presente esta limitação inerente à visão, cujos confins estão aqui visivelmente indicados. O futuro é visto apenas «como que num espelho, de maneira confusa» (cf. 1 Cor 13, 12). Consideremos agora as diversas imagens que se sucedem no texto do «segredo». O lugar da acção é descrito com três símbolos: uma montanha íngreme, uma grande cidade meia em ruínas e finalmente uma grande cruz de troncos toscos. A montanha e a cidade simbolizam o lugar da história humana: a história como árdua subida para o alto, a história como lugar da criatividade e convivência humana e simultaneamente de destruições pelas quais o homem aniquila a obra do seu próprio trabalho. A cidade pode ser lugar de comunhão e progresso, mas também lugar do perigo e da ameaça mais extrema. No cimo da montanha, está a cruz: meta e ponto de orientação da história. Na cruz, a destruição é transformada em salvação; ergue-se como sinal da miséria da história e como promessa para a mesma.

Aparecem lá, depois, pessoas humanas: o Bispo vestido de branco («tivemos o pressentimento que era o Santo Padre »), outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e, finalmente, homens e mulheres de todas as classes e posições sociais. O Papa parece caminhar à frente dos outros, tremendo e sofrendo por todos os horrores que o circundam. E não são apenas as casas da cidade que jazem meio em ruínas; o seu caminho é ladeado pelos cadáveres dos mortos. Deste modo, o caminho da Igreja é descrito como uma Via Sacra, como um caminho num tempo de violência, destruições e perseguições. Nesta imagem, pode-se ver representada a história dum século inteiro. Tal como os lugares da terra aparecem sinteticamente representados nas duas imagens da montanha e da cidade e estão orientados para a cruz, assim também os tempos são apresentados de forma contraída: na visão, podemos reconhecer o século vinte como século dos mártires, como século dos sofrimentos e perseguições à Igreja, como o século das guerras mundiais e de muitas guerras locais que ocuparam toda a segunda metade do mesmo, tendo feito experimentar novas formas de crueldade. No «espelho» desta visão, vemos passar as testemunhas da fé de decénios. A este respeito, é oportuno mencionar uma frase da carta que a Irmã Lúcia escreveu ao Santo Padre no dia 12 de Maio de 1982: «A terceira parte do “segredo” refere-se às palavras de Nossa Senhora: “Se não, [a Rússia] espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas”».

Na Via Sacra deste século, tem um papel especial a figura do Papa. Na árdua subida da montanha, podemos sem dúvida ver figurados conjuntamente diversos Papas, começando de Pio X até ao Papa actual, que partilharam os sofrimentos deste século e se esforçaram por avançar, no meio deles, pelo caminho que leva à cruz. Na visão, também o Papa é morto na estrada dos mártires. Não era razoável que o Santo Padre, quando, depois do atentado de 13 de Maio de 1981, mandou trazer o texto da terceira parte do «segredo», tivesse lá identificado o seu próprio destino? Esteve muito perto da fronteira da morte, tendo ele mesmo explicado a sua salvação com as palavras seguintes: «Foi uma mão materna que guiou a trajectória da bala e o Papa agonizante deteve-se no limiar da morte» (13 de Maio de 1994). O facto de ter havido lá uma «mão materna» que desviou a bala mortífera demonstra uma vez mais que não existe um destino imutável, que a fé e a oração são forças que podem influir na história e que, em última análise, a oração é mais forte que as balas, a fé mais poderosa que os exércitos.

A conclusão do «segredo» lembra imagens, que Lúcia pode ter visto em livros de piedade e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé. É uma visão consoladora, que quer tornar permeável à força santificante de Deus uma história de sangue e de lágrimas. Anjos recolhem, sob os braços da cruz, o sangue dos mártires e com ele regam as almas que se aproximam de Deus. O sangue de Cristo e o sangue dos mártires são vistos aqui juntos: o sangue dos mártires escorre dos braços da cruz. O seu martírio realiza-se solidariamente com a paixão de Cristo, identificando-se com ela. Eles completam em favor do corpo de Cristo o que ainda falta aos seus sofrimentos (cf. Col 1, 24). A sua própria vida tornou-se eucaristia, inserindo-se no mistério do grão de trigo que morre e se torna fecundo. O sangue dos mártires é semente de cristãos, disse Tertuliano. Tal como nasceu a Igreja da morte de Cristo, do seu lado aberto, assim também a morte das testemunhas é fecunda para a vida futura da Igreja. Deste modo, a visão da terceira parte do «segredo», tão angustiante ao início, termina numa imagem de esperança: nenhum sofrimento é vão, e precisamente uma Igreja sofredora, uma Igreja dos mártires torna-se sinal indicador para o homem na sua busca de Deus. Não se trata apenas de ver os que sofrem acolhidos na mão amorosa de Deus como Lázaro, que encontrou a grande consolação e misteriosamente representa Cristo, que por nós Se quis fazer o pobre Lázaro; mas há algo mais: do sofrimento das testemunhas deriva uma força de purificação e renovamento, porque é a actualização do próprio sofrimento de Cristo e transmite ao tempo presente a sua eficácia salvífica.

Chegamos assim a uma última pergunta: O que é que significa no seu conjunto (nas suas três partes) o «segredo» de Fátima? O que é nos diz a nós? Em primeiro lugar, devemos supor, como afirma o Cardeal Sodano, que «os acontecimentos a que faz referência a terceira parte do “segredo” de Fátima parecem pertencer já ao passado». Os diversos acontecimentos, na medida em que lá são representados, pertencem já ao passado. Quem estava à espera de impressionantes revelações apocalípticas sobre o fim do mundo ou sobre o futuro desenrolar da história, deve ficar desiludido. Fátima não oferece tais satisfações à nossa curiosidade, como, aliás, a fé cristã em geral que não pretende nem pode ser alimento para a nossa curiosidade. O que permanece — dissemo-lo logo ao início das nossas reflexões sobre o texto do «segredo» — é a exortação à oração como caminho para a «salvação das almas», e no mesmo sentido o apelo à penitência e à conversão.

Queria, no fim, tomar uma vez mais outra palavra-chave do «segredo» que justamente se tornou famosa: «O meu Imaculado Coração triunfará». Que significa isto? Significa que este Coração aberto a Deus, purificado pela contemplação de Deus, é mais forte que as pistolas ou outras armas de qualquer espécie. O fiat de Maria, a palavra do seu Coração, mudou a história do mundo, porque introduziu neste mundo o Salvador: graças àquele «Sim», Deus pôde fazer-Se homem no nosso meio e tal permanece para sempre. Que o maligno tem poder neste mundo, vemo-lo e experimentamo-lo continuamente; tem poder, porque a nossa liberdade se deixa continuamente desviar de Deus. Mas, desde que Deus passou a ter um coração humano e deste modo orientou a liberdade do homem para o bem, para Deus, a liberdade para o mal deixou de ter a última palavra. O que vale desde então, está expresso nesta frase: «No mundo tereis aflições, mas tende confiança! Eu venci o mundo» (Jo 16, 33). A mensagem de Fátima convida a confiar nesta promessa.

Joseph Card. Ratzinger 

Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé 


(1) Lê-se no diário de João XXIII, a 17 de Agosto de 1959: «Audiências: P. Philippe, Comissário do S.O., que me traz a carta que contém a terceira parte dos segredos de Fátima. Reservo-me de a ler com o meu Confessor».

capture14

(2) Vale a pena recordar o comentário feito pelo Santo Padre, na Audiência Geral de 14 de Outubro de 1981, sobre «O acontecimento de Maio: grande prova divina», em: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, IV‑2 (Città del Vaticano 1981), 409-412; cf. L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 18-X-1981), 484.

(3) Radiomensagem durante o rito, na Basílica de Santa Maria Maior, «Veneração, agradecimento, entrega à Virgem Maria Theotokos», em: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, IV-1 (Città del Vaticano 1981), 1246; cf. L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 14-VI-1981), 302.

(4) Na Jornada Jubilar das Famílias, o Papa entrega a Nossa Senhora os homens e as nações: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, VII-1 (Città del Vaticano 1984), 775-777; cf. L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 1-IV-1984), 157 e 160.

(5) Texto original da carta:

capture11

(6) Na «quarta memória», de 8 de Dezembro de 1941, a Irmã Lúcia escreve: «Começo pois a minha nova tarefa, e cumprirei as ordens de V. Ex.cia Rev.ma e os desejos do Senhor Dr. Galamba. Excetuando a parte do segredo que por agora não me é permitido revelar, direi tudo; advertidamente não deixarei nada. Suponho que poderão esquecer-me apenas alguns pequenos detalhes de mínima importância».

Texto original:

capture12

(7) Na citada «quarta memória», a Irmã Lúcia acrescenta: «Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé etc.».

Texto original:

capture13

(8) Na transcrição, respeitou-se o texto original mesmo quando havia erros e imprecisões de escrita e pontuação, os quais, aliás, não impedem a compreensão daquilo que a vidente quis dizer.

Fonte: http://www.vatican.va/



publicado por Carlos Gomes às 13:50
link do post | favorito
|

Terça-feira, 6 de Setembro de 2011
ECONOMIA PORTUGUESA ESTÁ À BEIRA DO PRECIPÍCIO

osservat3

Vaticano: Jornal oficial diz que economia está à «beira do precipício» e noticia terceiro pacote de ajuda a Portugal.

Artigo de primeira página no Osservatore Romano prenuncia «nova tempestade» depois de compras de dívida soberana pelo BCE

Lisboa, 06 Set. 2011 (Ecclesia) – O jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano, refere na edição de hoje que a economia está “à beira do precipício” e que a compra de divida soberana realizada nas últimas semanas pelo Banco Central Europeu (BCE) prenuncia mais complicações.

“Segundo os analistas do Barclays, na semana passada o BCE teria aumentado para 15 mil milhões de euros as aquisições de títulos de estados dos países da União Europeia em dificuldade”, quantia que se junta aos 6,65 mil milhões da semana precedente, “sinal que uma nova tempestade está a chegar”.

No artigo de primeira página intitulado “À beira do precipício”, o jornal refere que “a crise económica está a entrar numa nova fase”, perante a probabilidade de uma “recessão global” que atingirá “uma vez mais as populações mais débeis”.

A edição de 5-6 de Setembro informa também que a União Europeia autorizou o pagamento da terceira parte da ajuda ao Governo de Portugal, no seguimento do cumprimento das medidas de austeridade impostas pelos financiadores.

Para o Executivo de Bruxelas a aplicação dos programas de recuperação está no bom caminho, segundo os relatórios da troika da União Europeia, BCE e Fundo Monetário Internacional (FMI), acrescenta o Osservatore Romano.

O novo pacote, “esperado por Lisboa entre o fim de Setembro e Outubro totaliza 11.5 mil milhões de euros, dos quais 7.6 cedidos pela União Europeia e 3.9 pelo FMI”, indica o jornal da Santa Sé, acrescentando que a ajuda destas entidades vai chegar aos 78 mil milhões de euros.

RM

Fonte: http://www.agencia.ecclesia.pt/



publicado por Carlos Gomes às 13:43
link do post | favorito
|

Domingo, 10 de Julho de 2011
ÍCONE RUSSO - PORTA PARA O CÉU

A história do ícone começou no século XVI, quando o czar de Moscovo, Ivan, o Terrível, conquistou a cidade de Kazan, capital do Canato dos tártaros, tendo reduzido a cidade a cinzas. Uma menina, Matriona, encontrou o ícone numa das casas incendiadas. Naqueles dias toda a cidade era um monte ardente de brasas, mas a imagem da Virgem Maria, pintada numa pequena tábua de madeira, não chegou a ser tocada pelo fogo.

119462 

Este facto surpreendeu de tal maneira os contemporâneos, que o ícone foi imediatamente reconhecido como milagroso.

A notícia sobre o milagre espalhou-se por toda a Rússia.

Os peregrinos correram para Kazan para ver o ícone. Em breve tornou-se evidente que perante esta imagem de Nossa Senhora ocorriam verdadeiros milagres, que as orações diante da imagem livravam de doenças, concediam aos crentes a realização dos seus pedidos e ajudavam os pecadores arrependidos a resistir às tentações.

Desde então, o ícone da Nossa Senhora tornou-se um dos mais venerados na Rússia. Mas de repente ocorreu algo inconcebível - no início do século XX, na véspera do período revolucionário, o ícone foi roubado da igreja por um tal Tchaikin, que em breve foi detido, tendo reconhecido que havia vendido a moldura preciosa do ícone, gasto em bebedeiras o dinheiro e queimado a imagem.

A destruição do ícone deixou pasmado o país. O sacrilégio do ladrão foi interpretado como um prenúncio terrível para o Império, um sinal da próxima destruição do Estado e da Igreja.

Toda a esperança foi depositada nas duas cópias do ícone feitas ainda no século XVII que também foram reconhecidas como milagrosas. Conforme era considerado, um destes ícones salvou Moscovo da invasão polaca nos tempos do reinado do Falso Dimitri I e o segundo defendeu a Rússia na guerra com Napoleão.

Nos anos da revolução, estas relíquias também foram perdidas, mas um pouco antes da Segunda Guerra Mundial uma das cópias foi descoberta no estrangeiro. Primeiro o ícone foi guardado no convento de Fátima e depois entregue solenemente ao Vaticano.

Finalmente, a imagem milagrosa tornou-se o ícone predilecto do actual Papa João Paulo II, que orava diante dela nos seus aposentos no palácio papal do Vaticano.

Levando em consideração que a imagem de Nossa Senhora de Kazan segue a antiga tradição russa da pintura de ícones e difere absolutamente das imagens católicas, a veneração deste ícone pelo Sumo Pontífice da Igreja Romana já por si é um facto surpreendente.

Os ícones russos são uma antítese do espírito do Catolicismo. Em Roma os quadros inspirados em temas bíblicos são bastante apreciados. Cristo e os santos são apresentados como figuras realistas, pela cruz escorre o sangue. O paraíso é semelhante a uma cena pastoral ou a um baile num palácio real. Dum modo geral, o princípio básico duma tela católica é a (com)participação emocional nos acontecimentos bíblicos. E todo católico que contempla tal quadro vê nele uma história didáctica da sua fé.

Contrariamente, o ícone russo representa um sistema de sinais simbólicos. No ícone tudo é convencional: Jerusalém representa dos degraus para o espírito santo, Gólgota é um conjunto de toques de pincel uniformes. São sinais de Deus, mas não pedras verdadeiras. O sangue de Cristo não é vermelho, mas sim gotas de luz de salvação. Nos ícones russos é impossível encontrar um Cristo sem dentes, com a pele cheia de hematomas como na obra genial do pintor Matthius Grunewald no mosteiro de Isenheimer. Nesta pintura, as torturas brutais transformaram Cristo num pedaço de carne sangrenta, pregado à cruz pelos seus carrascos.

No ícone russo Cristo crucificado não aparece espancado com chicotes dos romanos, nem torturado desumanamente, nem é fixado na cruz com pregos - ele como que paira sobre o mundo, tem os braços abertos como que para abraçar a Humanidade. O ícone canónico não tem emoções, não é uma representação de factos verdadeiros, mas sim uma representação da verdade suprema, transluzindo o sentido e a essência dos acontecimentos.

No quadro da Madonna de Sisto de Rafael vê-se que o Menino Jesus tem peso. Pelo contrário, nos braços da Nossa Senhora executada pelo pintor russo medieval Dionyssius, Jesus é santo e não pesa nada.

O ícone canónico russo é difícil de ser entendido. O teólogo e príncipe Evgueni Trubetskoy caracterizou o ícone como uma "especulação em cores". O padre Zenon, pintor de ícones russo contemporâneo, afirma que "o ícone nada representa, ele só mostra". O seu sentido fundamental é transmitir a presença de Deus, não ser um quadro para os olhos, antes sim um olhar para Deus.

Os místicos ortodoxos consideram que o pintor de ícones não deve ofuscar Deus com a sua arte e, portanto, tem que "diluir-se" no acto de pintar. Só assim é que o ícone pode considerar-se verdadeiro. O ícone deve transmitir a força de Deus. E é esta qualidade da transmissão da força divina é que faz do ícone um anjo taumatúrgico que, ao descer dos céus à terra está perante pessoa em oração, a ler os seus pensamentos e a cumprir os seus pedidos.

É esta fé na fusão com Deus é que torna o ícone ortodoxo diferente do católico. Entre os católicos prevalece o culto da distância entre o ser e Deus, o culto do templo concebido como foco da pintura e música, da beleza e oração. E nisso também existe verdade e força. Entre os adeptos da doutrina ortodoxa vemos o culto da proximidade de Deus, o culto do mistério do acto.

A igreja romana pressupõe o contacto com Deus. Pelo contrário, a igreja ortodoxa pressupõe o silêncio e não admite nenhum diálogo, nenhuma conversa. A pintura católica é endereçada ao coração e à mente, elevando a pessoa aos céus. O ícone russo é endereçado, única e exclusivamente, a Deus devendo a própria representação transformar-se em nada, em vazio, apenas numa série de sinais. A missão do ícone é abrir as portas dum túnel mágico pelo qual Deus deve descer e instalar-se em você. Pois, quem olha para um ícone russo tem que como que ficar cego com a luz divina. "Não somos nós que contemplamos o ícone - é o ícone que nos contempla", dizia o teólogo Evgueni Trubetskoy.

As duas tradições, tanto católica como ortodoxa, têm as suas virtudes, sendo provavelmente impossível fazê-las aproximar-se sem perdas mútuas. No entanto, a odisseia emocional deste ícone ortodoxo, que passou pela devastação e fogo da revolução, pelos aposentos do Papa católico e foi depois devolvido por este ao mundo ortodoxo - tudo isso já é uma aproximação em si.

*observador político da RIA "Novosti", em http://port.pravda.ru/



publicado por Carlos Gomes às 00:05
link do post | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Setembro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


posts recentes

PORTUGUESES ESCREVEM AO P...

OURÉM RECEBE ÓPERA ROMANA...

OURÉM RECEBE COMITIVA DA ...

PAPA FRANCISCO JUNTA PRES...

S. JOÃO PAULO II É O GRAN...

BISPO DE LEIRIA-FÁTIMA AF...

PAPA FRANCISCO RECEBE REL...

DESLOCAÇÃO A ROMA DA IMAG...

SECRETÁRIO DE ESTADO DO V...

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA ...

FÁTIMA: IMAGEM DA CAPELIN...

Radio Vaticano recorda pr...

DEPUTADO À ASSEMBLEIA NAC...

O QUE DIZ A TERCEIRA PART...

ECONOMIA PORTUGUESA ESTÁ ...

ÍCONE RUSSO - PORTA PARA ...

arquivos

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

tags

todas as tags

links
Twitter
blogs SAPO
subscrever feeds