Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes de Ourém.
Segunda-feira, 30 de Julho de 2012
EM 1967, PROENÇA DUARTE, DEPUTADO À ASSEMBLEIA NACIONAL, EVOCOU SIDÓNIO PAIS E RECORDOU AS APARIÇÕES DE FÁTIMA

Na sessão de 14 de dezembro da IX Legislatura da Assembleia Nacional, o deputado Artur Proença Duarte fez uma intervenção naquele órgão na qual recordou o movimento sidonista de 1917 e outros factos importantes desse ano, como as aparições de Fátima, a propósito do 49.º aniversário da morte de Sidónio Pais. A sessão foi presidida por Mário de Figueiredo e secretariada por Fernando de Oliveira Proença e João Nuno Silva Pereira.

Artur Proença Duarte era natural de Idanha-a-Nova e foi por várias vezes eleito deputado pelo círculo de Santarém. Filiado na União Nacional desde os seus primórdios, exerceu entre outros os cargos de Presidente da Comissão Distrital de Santarém daquela organização, Presidente da Comissão Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Santarém, Presidente da Junta da Província do Ribatejo e representante da produção no Conselho Geral da Junta Nacional do Vinho. Ideologicamente revia-se por completo na política do Estado Novo e na figura do Dr. Oliveira Salazar.

Transcreve-se a sua intervenção por se tratar de um registo histórico de interesse para o Concelho de Ourém.

O Sr. Proença Duarte: - Sr. Presidente: Há 50 anos, naquele ano de 1917, verificaram-se em Portugal alguns acontecimentos que tiveram e continuam a ter profunda e decisiva influência na vida espiritual e temporal da Nação.

As aparições de Fátima, nesse ano ocorridas, revigoraram o sentimento religioso dos Portugueses, então oprimido e perseguido pelos poderes estaduais, opressão e perseguição essa que o mais categorizado chefe político da época sintetizava na afirmação de que a religião católica desapareceria de Portugal dentro de duas gerações.

Essas aparições foram causa de um facto único nos anais da história de Portugal: a vinda a Portugal de Santo Padre o Papa Paulo VI (decorridos 50 anos sobre o transcendente acontecimento, que está tendo projecção universal.

Ao aproximar-se o final desse ano, no dia 5 de Dezembro de 1917, um movimento revolucionário afastava do Poder uma facção política que se determinava e actuava com base em princípios que estavam em oposição com a idiossincrasia do povo português, com as ideias e princípios sob cujo impulso se formara a Nação, se expandira e projectara através das cinco partes do Mundo.

Teve início esse movimento num isolado esquadrão de cavalaria instalado, a título precário, no que então era o matadouro municipal, junto ao Liceu de Camões, singular coincidência, e comandado por um jovem tenente que se revoltara contra a degradação para que se estava encaminhando o País, arruinado nas suas finanças, na sua economia, com permanente perturbação da ordem interna e desprestigiado no conceito internacional.

Foi a reacção viril e sadia da gente nova de Portugal contra a ruína, a desordem, o desprestígio e desaportuguesamento da vida nacional.

Tomou a chefia do movimento Sidónio Pais, professor catedrático, antigo Ministro, diplomata e figura do mais alto relevo moral e intelectual!

E dali, no alto do Parque Eduardo VII, que ficou a ser conhecido pelo «Morro de Sidónio», impôs a gente nova de Portugal a destituição dos governantes, que, mais preocupados em satisfazer ambições pessoais e em cumprir determinações das alfurjas maçónicas do que com os problemas vitais da Nação, actuavam ao arrepio do seu passado e da sua vocação histórica e a conduziam para o aniquilamento.

Também nesse ano de 1917 acabavam seus cursos superiores uns e iniciavam a sua carreira de professores universitários outros que mais tarde, após o movimento de 28 de Maio, viriam a ser os grandes obreiros da renovação, dignificação e progresso da vida nacional, dando assim, satisfação aos anseios e objectivos do povo português, que o movimento sidonista encarnou e se propunha realizar. Entrava então nessa altura na sua carreira de professor universitário aquele que havia de ser chefe prestigioso da política portuguesa e que havia de fazer renascer Portugal das profundidades dos abismos de degradação para onde o tinham encaminhado ideais que desaportuguesavam toda a vida portuguesa.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Sr. Presidente, de tal forma o País sentiu que esse homem representava um princípio de renovação, de tal forma lhe deu o seu apoio dedicado e forte, que foi preciso recorrer ao crime para dar por terminada uma obra que se antevia auspiciosa para a vida da Nação.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Faz hoje 49 anos, Sr. Presidente, que Sidónio Pais foi VII mente assassinado, ali na estação do Rossio, donde se dirigia para o Norte do País procurando resolver problemas que fundamentalmente interessavam ao bem comum.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:- Foi o princípio, Sr. Presidente, de um desagregar de forças, a que faltou uma mão firme que as conduzisse e orientasse no sentido em que se vinha processando, de há um ano a essa parte, a vida pública portuguesa. Tantos incidentes, tantos problemas, tantos desejos de triunfos pessoais, tantas ambições desmedidas, deram lugar a que aqui e lá fora, aqui nesta própria Assembleia, nesta mesma casa, a jacobinagem invadisse as galerias e insultasse os que aqui se encontravam, e lá fora logo se manifestou igualmente o basfond das alfurjas em que se apoiava o poder político de então. Foi a revolução da juventude, foi a gente nova de Portugal, que, interpretando os justos anseios da Nação, interpretando a vontade forte do bom povo português, levou de vencida e desalojou do Poder os homens que, levados mais por ambições pessoais e determinados mais pelas pranchas maçónicas do que pelo interesse verdadeiro e real do País, degradavam a Nação, vilipendiavam os sentimentos mais nobres e puros do povo português.

Sr. Presidente: Passados anos ainda, e também por um movimento militar - pois nunca o exército dorme quando está em risco a causa da Pátria -, foi de novo afastado do Poder o sistema político que o sidonismo dele tinha removido em 1917. E este estado corporativo, em que desde há longos anos nos vimos empenhando para fazer prosperar e evoluir para melhores tempos, esse estado corporativo teve as suas raízes e o seu início no Senado constituído no tempo de Sidónio por representação das províncias e das diferentes actividades profissionais, valorizando-se assim socialmente os trabalhadores portugueses.

Foi então, Sr. Presidente, no tempo de Sidónio Pais, e sendo Ministro da Justiça o Prof. Nobre de Melo, que se reataram as relações diplomáticas com a Santa Sé, que tinham sido cortadas, afastando assim Portugal da sua tradição e vocação históricas. E muito do que hoje temos realizado esboçou-se no tempo de Sidónio Pais.

Sr. Presidente: Vão - decorridos 49 anos que ele foi assassinado. E a prova bem evidente de quanto isso feriu a sentimentalidade do povo português ainda hoje se pode encontrar ali nas ruínas queimadas da Igreja de S. Domingos, onde os cadetes de Sidónio compareceram para rezar por sua alma.

Pois prestemos nós aqui homenagem devida a esse precursor e a todos quantos com ele e ao lado dele, leal e firmemente, se devotaram à causa da restauração da vida nacional.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.



publicado por Carlos Gomes às 00:01
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