Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes de Ourém.
Segunda-feira, 4 de Abril de 2011
D. Afonso, 4º Conde de Ourém (2ª Parte)

(continuação)

Conde de Ourém

Até Itália não é feita referência descritiva a mais nenhum local ou edifício. Já em Siena é referida a porta da Sé e em Roma os paços de S. João de Latrão, onde ficaram alojados os noivos e que D. Afonso visitou, para além da antiga Catedral de S. Pedro, onde foram realizadas as cerimónias de casamento e unção dos imperadores, e das igrejas de S. Paulo e S. João e outros logares sagrados intra e extra muros da Cidade[59], que o narrador diz terem sido visitados pelo Marquês de Valença e respectiva comitiva. O texto de Pedro de Sousa acrescenta que D. Afonso terá querido expressamente visitar Assis, com o objectivo de prestar homenagem junto dos túmulos de S. Francisco e Santa Clara que estavam nas respectivas igrejas, o que obrigou a um desvio do caminho entre Siena e Roma, para poder fazê-lo. Não nos parece que o Conde de Ourém tenha seguido para Nápoles com o casal imperial após a coroação, mas há indicações em como se juntou, mais tarde a D. Leonor, para a acompanhar à Alemanha, em Junho de 1452.

Poderão colocar-se várias dúvidas: onde e quando se terá de novo juntado D. Afonso à Imperatriz para seguir depois viagem com ela? Sabendo que D. Leonor chegou a Neustat a 19 de Junho e que a comitiva portuguesa, que não a acompanhou, embarcou para Lisboa a 25 de Julho, será que D. Afonso regressou de novo a Pisa, passado pouco mais de um mês, para vir junto para Portugal? A resposta a esta questão parece-nos afirmativa pois esta seria a única justificação para que a comitiva portuguesa permanecesse em Itália, entre Abril e Julho de 1452, esperando assim o regresso do seu senhor. Verdadeiramente, nenhum dos registos escritos nos esclarece sobre o que se terá passado nestes três meses, bem como nos tempos seguintes, pois não conseguimos encontrar a data de regresso ao reino do 4º Conde de Ourém.

Mas a hipótese de D. Afonso ter aproveitado novamente para viajar ganha alguma plausibilidade atendendo a que, data de 1453 aencomenda que realizou, cujo registo o designa por Marchese di Valença, à oficina de Lucca della Robia em Florença, de um conjunto de peças que foram embarcadas no ano seguinte para Lisboa e que se destinavam, segundo Rafael Moreira, à Igreja da Colegiada de Ourém que por aquele tempo andava em construção[60]. Aliás, aquele autor, a este propósito, refere que D. Afonso passou por Florença em 1453. Terá permanecido na Alemanha durante alguns meses e regressado de novo a Itália? Ou teria alguém de confiança em Itália, através de quem fez as referidas encomendas?

Os dados que recolhemos da vida do 4º Conde de Ourém apenas nos permitem localizá-lo com toda a certeza em Portugal a 25 de Junho de 1455, quando o pequeno D. João II foi jurado herdeiro. Há portanto um hiato de tempo, razoavelmente  dilatado, em que não sabemos o que terá feito D. Afonso. Saiu de Portugal, em missão para Itália, no final de 1451; em Março de 1452 estava em Roma e em Junho do mesmo ano na Alemanha; e, enquanto o casal imperial esteve em Nápoles (partiu de Roma no final de Março e regressou a Veneza a meio de Maio), D. Afonso não o acompanhou. Não sabemos quando voltou a Portugal. Mas para quem tinha tão importantes obras em curso nos seus domínios atrevemo-nos a adiantar que ele terá regressado logo que foi dada como terminada a missão diplomática de que ia incumbido – Julho de 1452 – , pois as empresas que tinha iniciado – obras em Ourém e Porto de Mós – necessitavam da sua presença para a conclusão. E quanto às encomendas que se efectivaram quase um ano depois, embarcadas para Lisboa em Maio de 1454, terá tratado delas enquanto D. Leonor esteve em Nápoles, aproveitando assim os meses de Abril e Maio de 1452 para estadear mais uma vez pela península itálica, talvez novamente por Florença onde, agora sim, poderia ter tido a oportunidade de ver as escultura e cerâmicas polícromas de Luca della Robbia aplicadas na Catedral e respectiva sacristia (1445/1451) e na Sacristia Velha de S. Lorenzo (1443). Daqui ter-lhe-á ficado certamente a vontade de possuir peças cerâmicas da oficina daquele artista, embarcadas para Portugal em 1454, cuja encomenda terá sido efectivada em 1453, possivelmente através de um encarregado de negócios que sabemos D. Afonso tinha em Florença[61].

A última viagem de D. Afonso foi, como referimos, feita no âmbito da missão militar da tomada de Alcácer Ceguér. A frota que organizou no Porto reuniu-se em Lagos à do monarca e daí seguiu para a costa marroquina onde, no início de Outubro de 1458, aportou a Alcácer. Uma vez que o rei foi depois a Ceuta é provável que o Conde de Ourém o tenha acompanhado, avistando, assim, pela segunda vez aquela cidade.

Por tudo quanto dissemos, parece-nos claro que D. Afonso terá contactado com o que de melhor, mais interessante e original se fazia na época que, curiosamente, tomava feição diferente, caso se tratasse da Flandres ou de Itália, tendo estado frente a estes dois mundos, cujas realizações, com intenções semelhantes, se materializaram nestas duas culturas que marcaram a vanguarda artística do século XV, de forma completamente diversa.

Ainda em Portugal, o 4º Conde de Ourém deverá ter conhecido Jan van Eyck, que acompanhou a embaixada borgonhesa a Lisboa em 1428-29. O célebre pintor esteve em Avis, junto da corte, nos primeiros meses de 1429, com a missão de retratar a Infanta D. Isabel[62]. D. Afonso também lá se encontrava. É portanto quase certo que se terão cruzado. Será que o viu trabalhar? Terá visto obras suas? Na Flandres terá tido essa oportunidade. Lá van Eyck era um artista reconhecido – era já pintor da corte – e iniciava as primeiras experiências que o levariam à liderança do movimento de inovação pictórica da pintura flamenga. E das inúmeras personalidades que D. Afonso contactou no âmbito desta embaixada, destacamos as figuras de Baudoin de Lannoy, Senhor de Molembaiz e governador de Lille, um dos embaixadores que vieram a Lisboa em 1428-29 para negociar com D. João I o acordo de casamento, a quem Van Eyck pintou um retrato em 1432 (Retrato de Boudoin de Lannoy – Fig. 14)[63] e Nicolas Rolim, destacado nobre próximo de Filipe-o-Bom – foi uma das suas testemunhas de casamento – que chegou a chanceler da Borgonha e que patrocinou o famoso retábulo A Virgem do Chanceller Rolim (Fig. 15), também pintado por van Eyck em 1451, destinado à capela da sua família na Igreja de Notre Dame-du-Chastelem Autum. Estes nobres terão sido talvez dos primeiros a encarnar o espírito mecenático que se generalizou mais tarde no meio aristocrático. De facto, o Papa Nicolau V, em 1450, nomeou Rolim patrono oficial daquela igreja, tantas tinham sido as dádivas artísticas feitas pelo chanceler. É assim muito provável que o Conde de Ourém tenha visto o retrato do embaixador flamengo que data precisamente de 1432 e, apesar da efectivação da encomenda do Chanceler Rolim se ter verificado muito posteriormente à sua estada na Borgonha, cremos que a sensibilidade, o espírito e o ambiente que se vivia na Flandres nos anos 30 de quatrocentos, terão marcado definitivamente o seu gosto.

Fig. 13 – Cópias dos presumíveis desenhos realizados por Van Eyck de D. Isabel de Portugal
Fig. 14 – Jan van Eyck, Retrato de Baudoin de Lannoy. 1432. Gemaldegalerie, Berlin.
Fig. 15 – Jan van Eyck, A Virgem do Chanceller Rolim, c. 1435. Museu do Louvre, Paris.

Quanto à arquitectura, a Flandres apresentava nos seus edifícios uma feição semelhante à que se usava em Portugal (já tardo-gótica) mas com algumas diferenças significativas: de escala, muito maior, e de tipologia dado que, para além dos edifícios religiosos, muitos eram os de carácter civil igualmente grandiosos e belos que marcavam Gant ou Bruges, de entre os quais já deveriam destacar-se as sedes comunais, situadas na praça principal ou paços régios e nobres, luxuosamente decorados com panos e argentarias várias.

Nos alvores de um novo tempo D. Afonso esteve precisamente nas principais cidades dos dois territórios – Flandres e península itálica – onde novas ideias e formas começavam a florescer. As viagens que empreendeu, foram feitas em anos de clara mudança, difíceis até de classificar – 1430 na Flandres, 1436 na Toscânia ou 1452 em Roma, constituem precisamente pontos de viragem estéticos. Recordemos a este propósito que o Cordeiro Místico de Van Eyck foi colocado na Catedral de S. João (actual S. Bavão) em 1432; que a cúpula do Duomo de Florença foi inaugurada pelo Papa Eugénio IV em 1436; que data de 1450 a decisão do Papa Nicolau V de reformular a Basílica de S. Pedro em Roma, fazendo a encomenda do projecto a Leon Batista Alberti, remodelação aliás integrada no grande projecto de modernização da cidade; e que no ano de 1452 aquele arquitecto publicou o tratado De re aedificatoria. Fácil é fazer corresponder estes factos às passagens que o 4º Conde de Ourém fez pela Flandres, Florença e Roma, que nestes momentos cruciais, como é característico de tempos de mudança, deveriam fervilhar de novidades, contestação e discussão. Feliz coincidência ou talvez não, o facto é que 100 anos antes da divulgação de um novo ideário estético que só chegou a Portugal ia já avançado o século XVI, D. Afonso conheceu-o, observou-o. E, tal fortuna que só o acaso pode explicar, proporcionou-lhe o enriquecimento visual e estético que, junto à cultura e erudição de que era detentor e que soube cultivar e desenvolver, possibilitaram a edificação nos seus domínios de uma obra inovadora e marcante, digna da sua estatura intelectual e do seu singular estatuto nobre.

 

Índice das Imagens e respectiva legenda

 

 

Fig. 1 – Painel dos Cavaleiros (pormenor). Painéis de S. Vicente. Nuno Gonçalves. Segunda metade do século XV. D. Afonso, 4º Conde de Ourém e Marquês de Valença é a segunda figura de opa verde com colar – identificação avançada por José de Figueiredo, seguindo a observação de Virgílio Correia em 1924, da semelhança com o respectivo jacente (1485-87). >> VER

Fig. 2 – Fonte pública de Ourém – fachada e vista lateral (acesso à bica) >> VER

Fig. 3 – Paço de Ourém –torres baluarte, fachada sul e norte do edifício do paço >> VER

Fig. 4 – Paço de Porto de Mós (postal editado pelo IPPAR) >> VER

Fig. 5 – Relicário oferecido por D. Afonso, 4º Conde de Ourém, à Colegiada da sua vila condal. Prata dourada. Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa. (“Nos confins da Idade Média: arte portuguesa séculos XII-XV”, Catálogo da Europália, ob. cit., p. 249) >> VER

Fig. 6 – Beccatelli do Paço de Ourém – na fachada oeste e pormenor >> VER

Fig. 7 – Mapa com o roteiro das viagens de D. Afonso, 4º Conde de Ourém (RIBEIRO, Gonçalo Morais, “Viagens do Conde de Ourém”, Actas do Congresso Histórico D. Afonso 4º Conde de Ourém e a sua época, ob. cit., p. 222) >> VER

Fig. 8 – Cripta da antiga Colegiada de Ourém (actual Igreja de Nª Sª das Misericórdias). Vista interior >> VER

Fig. 9 – Arca funerária de D. Afonso, 4º Conde de Ourém e Marquês de Valença (postal editado pelo IPPAR) >> VER

Fig. 10 – Retrato presumível de D. Isabel de Portugal chamado “Sibyla Persica”, Malibu, Museu J. Paul Getty (LEMAIRE, Claudine e HENRY, Michéle, Isabelle de Portugal Duchesse de Bourgogne, ob. cit., capa) e Filipe-o-Bom,, recebe a “Crónica de Hainnaut”. Miniatura da mesma; desenho de Rogier van der Weyden, séc. XV. (História de Arte, Vol. 4, Ed. Planeta De Agostini, 1996, p. 155) >> VER

Fig. 11 – “Carlos IV, o Belo, acolhe em Paris a sua irmã Isabel, rainha de Inglaterra, 1325. Miniatura extraída das Chroniques de Sir Jean Froissart, sé. XIV, Paris, Biblioteca Nacional de França. As «entradas» reais e dos príncipes glorificavam a função de encontro, de acolhimento e de festa, cujo lugar principal, material e simbólico é a porta da capital.” (In: LE GOFF, Jacques, Por Amor das Cidades, Lisboa, Editorial Teorema, 1999, p. 22) >> VER

Fig. 12 – Pinturicchio, Libreria Piccolomini, Catedral de Siena. Este fresco representa o encontro entre Frederico III e D. Leonor. Afirma-se que o personagem masculino que se encontra à esquerda, em primeiro plano, de costas é D. Afonso, Marquês de Valença. (FRASSI, Sílvia, Lo Sbarco dell´Imoeratrice Eleonora (1452): Documenti Inediti Sulle Relazioni Fra Pisa e il Portogallo nel Quattrocento, Tesi di Laurea in Lettere, Università Degli Studi di Pisa, Facoltà di Lettere e Filosofia, 2001/02, p. 90) >> VER

Fig. 13 – Cópias dos presumíveis desenhos realizados por Van Eyck de D. Isabel de Portugal (LEMAIRE, Claudine e HENRY, Michéle, ob. cit., pp. 168 e 182) >> VER

Fig. 14 – Jan van Eyck, Retrato de Baudoin de Lannoy. 1432. Gemaldegalerie, Berlin. (FERRARI, Simone, ob. cit., p.56) >> VER

Fig. 15 – Jan van Eyck, A Virgem do Chanceller Rolim, c. 1435. Museu do Louvre, Paris. (História da Arte, Vol. 5, Planeta de Agostini, p. 190) >> VER

 


[1] Os pais casaram em Novembro de 1401 e deste matrimónio nasceram 3 filhos, pela seguinte ordem: D. Afonso, D. Isabel e D. Fernando, conhecendo-se apenas o ano de nascimento do último dos irmãos – 1403. Cf. Lita Scarlatti, Os homens de Alfarrobeira, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1980, p.165; e António Caetano de Sousa, História genealógica da casa real portuguesa, Livro VI, Coimbra, Atlântida, 1946-1955, Cap. I, p. 7 e Cap. III, p. 62.

[2] D. Afonso, Conde de Barcelos e 1º Duque de Bragança era filho natural de D. João I, nascido quando este tinha 14 ou 15 anos, “em tempo em que ElRey (...) ainda não tinha empunhado o Sceptro, e era Mestre da insigne Ordem de Cavallaria de S. Bento de Aviz” ( in António Caetano de Sousa , op. cit, Livro VI, Cap. I, p. 3). Foi educado por Gomes Martins de Lemos, no círculo dos frades franciscanos de Convento de Leiria. Durante os anos da crise D. João manteve-o, junto com uma irmã, D. Beatriz, oculto, mas depois de aclamado rei, viveu sempre próximo da corte. Acompanhou o pai nas lutas pela independência, e foi armado cavaleiro pelas mãos do novo monarca, em Tui, no ano de 1398. D. João I sempre o protegeu e teve por ele especial afeição – “... se não era o mais herdado, era o mais querido” (in  Frei Rafael de Jesus, Monarchia lusitana, Tomo I, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1958). Ao casar foi perfilhado e nobilitado sendo-lhe atribuído o título de Conde de Barcelos, até aí pertença do sogro que o transfere para o novo genro, com o acordo régio. O título de Duque de Bragança foi-lhe atribuído bastante mais tarde pelo Infante D. Pedro, em 1442, durante o período de regência após a morte de D. Duarte. Cf. J.T. Montalvão Machado, D. Afonso, primeiro duque de Bragança, Edição do autor, Lisboa, Depositária: Livraria Portugal, 1964, p. 103  e D. Afonso 8º conde de Barcelos e fundador da Casa de Bragança, Separata da Revista Guimarães, Vol. LXXIII, Guimarães, 1963, p. 10; e Joel Serrão e A. H. Oliveira Marques, “Portugal na crise dos séculos XIV e XV”, Nova história de Portugal, Vol. IV, Lisboa, Editorial Presença, 1987, p. 553. 

[3] Filha única de D. Nuno Álvares Pereira e de D. Leonor Alvim, cujo casamento foi determinado pelo pai do futuro condestável, que decidiu unir o filho, com 16 anos, a uma distinta viúva possuidora, na região de Entre Douro e Minho, de uma das mais avultadas fortunas do norte do país. Desta união nasceram 3 filhos – dois rapazes e uma rapariga, tendo apenas sobrevivido D. Beatriz. Cf. Mafalda Soares da Cunha, A Casa de Bragança, 1383-1483, Trabalho de síntese para as provas de aptidão pedagógica e científica ao Departamento de História e Arqueologia da Universidade de Évora, Évora, 1988, p. 36.

[4] “...que o levaram a ser apelidado pelo professor Pedro Dias, de “mais um membro da Ínclita Geração.” in José Manuel Poças das Neves, “Entre Fernando Pessoa e Miguel Torga – Uma abordagem à história de D. Afonso”, Actas do congresso histórico D. Afonso, 4º conde de Ourém e a sua época, Câmara Municipal de Ourém, 2004, p. 243.

[5] Lita Scarlatti, op. cit. pp.166 e 167.

[6] D. Duarte nasceu em 1392, D. Pedro em 1394, D. Henrique em 1396, D. Isabel em 1397, D. João em 1400 e D. Fernando em 1402.

[7] Cf. Augusto Vieira da Silva, “Os paços dos duques de Bragança em Lisboa, (Reconstituição topográfica dum trecho da Lisboa desaparecida)”, Separata de Olissipo, Nº 20 e 21 Boletim do grupo amigos de Lisboa, 1942.

[8] “Tinha em Lisboa, os paços antes pertencentes ao avô, situados no Rossio, ao Paço dos Estaus” in  Lita Scarlatti, op. cit., p. 168.

[9] D. Pedro era Duque de Coimbra e D. Henrique, Duque de Viseu;  D. João foi Mestre da Ordem de Santiago e D. Fernando da Ordem de Avis.

[10] Pela mão dos três filhos, o Conde de Barcelos exercia a sua influência junto do poder régio: D. Isabel casou com o Infante D. João em 1422, passando a fazer parte da família real; D. Fernando, Conde de Arraiolos (título também concedido pelo avô em 1420) foi direccionado para a área militar tendo desempenhado o cargo de fronteiro-mor e sido responsável por várias missões deste âmbito.

[11] Notável peça da ourivesaria portuguesa do século XV, “é de tipo invulgar, pois alia a existência da habitual arca a um pé mais próprio de custódia que de qualquer outro objecto de culto” (in Pedro Dias, O gótico, História da arte, Edições Alfa, Lisboa, Vol. IV, p. 150). Cf. Maria Antónia Pinho de Matos (coord.), Nos confins da Idade Média: arte portuguesa séculos XII-XV, Catálogo para o Festival Europália Portugal 91, Lisboa, Instituto Português de Museus, 1992, p. 248.

[12] A antiga vila de Ourém é actualmente uma das freguesias do Concelho de Vila Nova de Ourém – Nossa Senhora das Misericórdias. O antigo aglomerado, situado no alto de um morro com 328m de altura, perdeu importância a partir do final do século XVIII, pois o terramoto de 1755 quase que o destruiu por completo, obrigando a população a mudar-se para a freguesia mais próxima, a Aldeia da Cruz, situada no sopé do monte e que a partir de1841 passou a ser a nova sede do concelho. O perímetro da antiga Ourém, praticamente inalterado desde então e cuja definição ficou estabelecida desde as obras levadas a cabo por D. Afonso, permite ter uma ideia muito aproximada de como era esta singular vila no século XV. A Fonte pública apresenta-se muito bem conservada e ainda hoje da sua bica jorra abundante e fresca água. O edifício da Colegiada ruiu por completo em 1755, tendo o actual sido construído entre 1760 e 1770, com projecto de Carlos Mardel. Da construção original apenas restou a Cripta, onde o 4ª Conde de Ourém foi sepultado em 1487 (Fig. 8), num túmulo de autoria de Diogo Pires-o-Velho (Fig. 9). O Paço que D. Afonso mandou edificar junto ao primitivo castelo da vila, constituído pelo edifício de habitação propriamente dito e duas torres baluarte que assentam na muralha, apesar de bastante danificado revela uma imagem de grandiosidade que marca a paisagem. As torres foram restauradas durante os anos 40-50 do século XX e apresentam-se num razoável estado de conservação; o mesmo não se pode dizer de significativos troços da muralha. Quanto ao edifício do paço, não tem cobertura e o interior está quase totalmente esventrado. Resta apenas um pavimento, a que se pode aceder, com algumas paredes interiores onde é ainda possível ver algumas portas com o respectivo aro, paredes exteriores com a marcação dos respectivos vãos, algumas conversadeiras e vestígios de lareiras. No conjunto sobressai um original e razoavelmente bem conservado friso decorativo, aposto na fachada norte do edifício, assim como uma varanda e respectivos apoios que o rematam. Quanto ao paço que D. Afonso mandou edificar em Porto de Mós, remodelando o interior da primitivocastelo românico, estava no início do século XIX quase completamente caído por terra. Foi alvo do interesse da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que nele levaram a cabo, a partir dos anos 30 do século XX, obras de restauro que se prolongaram por mais de 50 anos. Algumas intervenções, nos anos 40-50 fizeram desaparecer para sempre muito do que tinha resistido à degradação que o tempo e os homens exerceram. Da obra quatrocentista podemos ainda ver a grande varanda voltada a sul e o pátio interior, originalmente porticado, de que restam alguns elementos de suporte de desenho muito original, assim como é possível ter ainda uma ideia global da intervenção levada a cabo no século XV.

[13] Devido ao progressivo assoreamento do Zwin, a partir do sinal do século XV, Éclusa foi perdendo importância como porto exterior que servia Bruges, levando a que Antuérpia passasse a ser, no início do século XVI, a nova capital  do comércio flamengo. Desde meados do século XIX, Éclusa ficou isolada do mar para sempre; situada junto à fronteira da Bélgica, pertence actualmente ao território holandês e é designada por Sluis que em flamengo também quer dizer éclusa/comporta.

[14]“After a full week of celebration, Phillip and Isabel left January 16 for a rigorous tour of all his terrirorial possessions. Among other cities her itinerary included Ghent, Lille, Arras, Perone, Noyon, Brussels, and Malines.”in  Aline Bercume Taylor, The diplomatic career of Isabel de Portugal. 1435 to 1437, Tese de doutoramento em Filosofia, Universidade do Colorado, Michigan, Ad. Ann Arbor, 1978, p.6.

[15] Cf. Domingos Maurício Gomes dos Santos, “O Infante D. Fernando na Flandres e na Alemanha?”, Separata da Revista Brotéria, Vol. LXXXVIII, Lisboa, Edições Brotéria, 1968.

[16] A 24 de Outubro de 1430, o 4º Conde de Ourém solicitou ao Papa um indulto para absolvição de todos os pecados e indulgência plenária, a que se juntou o mesmo pedido de D. Beatriz, condessa de Arrundel e D. Constância, segunda mulher do seu pai. Julgamos que este pedido terá sido expedido já de Portugal – “ O Conde de Ourém D. Afonso, sobrinho do rei de Portugal, pede o indulto para qualquer confessor o absolver de todos os pecados em artigo de morte e de lhe conceder a indulgência plenária, continuando o efeito de absolvição, mesmo que não morra. Solicitam o mesmo indulto D. Beatriz, viúva e condessa de Arundel, filha do rei de Portugal, e a mulher do Conde de Barcelos Dona Constânça.” in António Domingues de Sousa Costa, Monumenta portugaliae vaticana, Vol. IV, Braga, Editorial Franciscana, 1970, p. 586.

[17] Jacques Paviot, Portugal et Bourgogne au XVeme siécle (1384-1482), Centre culturel Calouste Gulbenkian, Commission Nationale pour les Comémorations des Découvertes Portugaises, Lisbonne-Paris, 1995, Doc. 92, pp.205-218.

[18] “...e fez adornar as ruas com panos da Flandres preciosidades d´aquelas com que ainda hoje os nossos olhos se maravilham” in  Domingos Maurício Gomes dos Santos, op. cit., p. 88.

[19] En icelluy hostel docques oultr les sales, chambres et logiez par-avant y edifiéz, dont il y a largement, fut faire une haulte, longue et largue sale de bois, tout de neuf, pour servir seulement le temps de la feste dudit mariage. in Jacques Paviot, op. cit., p. 215.

[20] Desta importante residência dos Duques da Borgonha, em Brujes, hoje praticamente nada resta. Constituída por um vasto conjunto de edifícios sofreu vários incêndios. As sucessivas reconstruções alteraram profundamente a sua feição medieval. Actualmente, 3 edifícios já do século XIX, ocupam o recinto. Uma operação de reabilitação do local motivou a realização de sondagens arqueológicas, durante o ano de 2004, que trouxeram à luz do dia estruturas de suporte, fundações e sistemas de esgotos, bem como conseguiram identificar ainda de pé, parte de uma parede do donjon do antigo palácio ducal e um pequeno edifício daquele conjunto.

[21] Bebida quente, composto de canela e amêndoa moídas, misturado com aguardente e açucar.

[22] D. Afonso possuía inúmeras relíquias que estavam na Colegiada de Ourém. Após o terramoto, as que foi possível recuperar dos escombros da igreja foram distribuídas pelas igrejas das freguesias de Ourém.

[23] No dia 1 de Novembro desse ano – 1431 – morreu D. Nuno Álvares Pereira, avô de D. Afonso. Apesar de não existirem referências quanto à sua presença durante as exéquias, cujos relatos de Fernão Lopes e do anónimo biografo da Crónica do Condestável são pouco detalhados, parece-nos provável que, se estava ausente, quando soube da notícia, tudo tenha feito para regressar o mais depressa possível a Portugal, portanto, ainda no final de 1431.

[24] O edifício medieval foi totalmente remodelado no final do século XVIII: no piso térreo foi instalada a bolsa da cidade e nos andares superiores funcionou, entre 1849 e1970, a Escola de Belas Artes de Barcelona, que Picasso e Miró frequentaram; alberga actualmente a Biblioteca Pública e repartições do estado.

[25] Cf. José Custódio Vieira da Silva, A arquitectura gótica catalã e a arquitectura do tardo-gótico alentejano: estudos e influências, Porto, Instituto da Cultura e da Língua Portuguesa, 1989, p. 6.

[26] O ano da saída de Portugal, nas fontes que consultámos não recolhe unanimidade. Uns consideram  1435 – Duarte Nunes de Leão, Caetano de Sousa e Montalvão Machado – enquanto outros, o ano seguinte – António Pereira de Figueiredo, Damião Peres, Lita Scarlati , Aida Dias e Joel Serrão no Dicionário de história de Portugal, aponta as duas datas, em 2 artigos diferentes: no relativo a Diogo Mangancha, afirma ter este estado no Concílio em 1436-37; mas no de Vasco de Lucena diz que este célebre jurista acompanhou aquela embaixada em 1435. A razão para apontarmos com toda a certeza o ano de 1436, como ano da partida de Lisboa, prende-se com o seguinte facto devidamente documentado: o Conde de Ourém pediu a D. Duarte para hir fora do regno, a veer tera onde se entom for[a] como ficou registado no texto de Frei João Álvares (Obras, edição crítica com introdução e notas de Avelino de Almeida Calado, Coimbra, 1960, p.19). A mesma obra situa a data deste pedido por alturas da chegada do Abade D. Gomes, a Portugal, com a Bula da Cruzada (obtida do Papa pelo 4º Conde de Ourém, na sua passagem por Bolonha onde se encontrava a corte pontifícia, antes de integrar os trabalhos do Concílio em Basileia, e que foi expedida a 8 de Setembro de 1436), que ocorreu “em princípios de 1437 em pleno período de preparativos para expedição de Marrocos” (in Damião Peres, História de Portugal, p. 51). Fica assim clara a cronologia da viagem: saída de Lisboa em Janeiro de 1436; estada em Bolonha para negociações com o Papa, entre 24 de Julho e 10 de Outubro do mesmo ano; expedição da bula a 8 de Setembro; chegada do Abade D. Gomes no início de 1437.

[27] Existem três transcrições deste texto: a primeira está inserida na História genealógica da casa real portuguesa de António Caetano de Sousa; a segunda, no estudo de Lita Scarlati, Os homens de Alfarrobeira (1980); Diário da jornada do conde de Ourém ao concílio de Basileia (apresentação e leitura de Aida Dias), editado pela Câmara Municipal de Ourém em 2003, é a mais recente.

[28] ho Conde d´Ourem, nom teendo esperança de aver affecto sua mais estada, se despedio do Concilio e com sua companhia foy visitar ho Sepulcro Santo de Jerusalem, e ho Bispo Dom Antam e os outros Embaixadores se tornáram em Italia, a despedir com ho Papa Eugenio as cousas que em nome d´ElRey lhe tinha concedidas; (...) e  os outros Embaixadores se vieram para Portugal. in Crónicas de Rui de Pina, Introdução e revisão de M. Lopes de Almeida, Porto, Lello e Irmão, 1977, p. 508

[29] E em esto chegou a estes regnos, por delegado do Santo Padre Eugenyo quarto, aaquele tenpo prosidente na egreja de Roma, frey Gomez, abade de Florença, (...). E considerando ElRey sobre a licença que lhe este Ifante [D. Fernando] tiinha pedida pera se hir a Ingraterra e como o Conde d´Areolos, seu sobrinho, isso mesmo lhe pedia licença pera hir em companhia delRey de Castela aa conquista de Graada, e o Conde d´Ourem lhe pedia também licença pera se hir fora do regno, a veer tera onde se entom for[a], ... in , Frei João Álvares, Obras, edição crítica com introdução de Avelino de Almeida Calado, Coimbra, 1960, p. 19.

[30] Cf. António Machado de Faria, Crónica do condestável de Portugal D. Nuno Álvares Pereira, Lisboa, Academia Portuguesa de História, MCMLXXII, p. 232.

[31] Em Veneza he Airas Ferreira, Gonçalo de Soussa, Diego Gil, vedor do conde dOurem; querem pasar ao Sepulcro em galle que passa este mês de setembro, com que o conde he hj pera pasar. in António Domingues de Sousa Costa, O infante D. Henrique na expansão portuguesa, Braga, 1960, Doc. XXIII, pp. 147-8.

[32] Dez dias foi o tempo que demorou a viagem entre Lisboa e Ceuta da embaixada que levou D. Leonor a Itália, quando ali fez a sua primeira paragem.

[33] Consulte-se sobre este assunto o estudo de Ana Maria Alves, As entradas régias portuguesas – uma visão de conjunto, Colecção Horizonte Histórico, Lisboa, Livros Horizonte, 1986.

[34] A sua imagem ficou imortalizada numa estátua de Donatello, erguida em 1453, na Praça da Basílica de Stº António de Pádua, a primeira estátua equestre esculpida depois da Antiguidade.

[35] Bispo de Cartagena e Burgos – R. Selemoh Helevi, judeu convertido, grande erudito e escritor – e seus filhos: Gonzalo de Santa Maria, Bispo de Astorga, Plasencia e Sigenza, conselheiro do rei e auditor apostólico e D. Afonso de Cartagena, mais tarde sucessor do pai na mitra de Burgos, autor de várias obras filosóficas e teológicas. Cf. I, Litta Scarlatti, op. cit., pp. 172-73.

[36] DIAS, Aida, op. cit., p. 20.

[37] E assi entrou o Conde honradamente em Florença e foi pousar em huns paços que som do Marquês de Ferrara, ... Ibidem, p. 37.

[38] Ibidem, p. 40. Presumimos que seja a Torre Asinelli, construída em 1109, com cerca de100 m de altura, a mais alta da cidade

[39] E sabei que a See que tem, que he muy grande e muy larga e bem fermosa, se for acabada. Ibidem, p. 47. Curiosamente a Catedral de Milão só foi definitivamente concluída no século XIX.

[40] Ibidem, p. 79.

[41] Ibidem, p. 80.

[42] Ibidem, p. 83.

[43] Ibidem, p. 26.

[44]  E a Rainha estava assentada em hum estrado (...) e o Conde lhr fez huma muy grande mesura (...) e fêllo assentar a cabo de si em huma almofada muito fermosa e estiverom assentados per espço de duas oras fallando. (...) E foi o Conde fallar à Iffante em hma camara que estava a paar da camara da Rainha (...) e  estiverom fallando per espaço de três oras. Ibidem, p. 27.

[45] “The project for Brunellechi´s most important and most revolutionary work, the cupola of the Cathedral, dates from 26 May 1417; on 7 August 1420 the supporting wall was in course of construction, and on 30 August 1436 the completed cupola was blessed.” in John Pope-Hennessy,  Italian renaissance sculpture, Vol. II, London, Phaidon, 2002, p. 344.

[46] “Par ailleur, il est historiquement certifié que cette machine est restée sur la place de Florence prés de soixante-dix ans aprés la construction de la coupole: elle a pu donc être object d´étude pour Leonard, ou pour d´autres.” in António Manetti, Filippo Brunellechi 1377-1446, Paris, École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, 1985, p. 28.

[47] Filho de um fidalgo de D. João I, de nome João Martins, D. Gomes estudou Direito em Pádua; em 1412/13 aderiu à Ordem de S. Bento  fazendo o noviciado em Stª Justina, um mosteiro dirigido pelo Abade Ludovico dos Barbos de Veneza e ao qual também pertencia Gabriel Condulmer, futuro Papa Eugénio IV. O mosteiro começou a ganhar fama e expandiu-se tendo Dom Gomes sido um dos noviços que integrou o primeiro grupo que se instalou em        S. Fortunato de Bassano, tendo voltado a Stª Justina para professar no início de 1414. A partir de 1418, foi encarregue de governar 16 monges, ao ser nomeado prior e reformador da Badia Florentina que estava em decadência havia alguns anos, tendo sido a mesma por ele dirigida até 1439, data em que Eugénio IV o nomeou Geral da Ordem Camaldulense. Em 1441 regressou definitivamente a Portugal, tendo sido feito Prior de Santa Cruz de Coimbra, que governou até à morte. Cf. Eduardo Nunes, Dom Frey Gomes, Abade de Florença (1420-1440), Dissertação de doutoramento em História apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Vol. I, Braga, Edição do autor, 1963.

[48] “...em virtude da entrada para o mosteiro, no ano anterior [1426], de Tommaso di Ser Brunelescho. (...) Tommaso era irmão do genial Filippo di Ser Brunelescho (ou Filippo Bruneleschi).” in Eduardo, Nunes, Ibidem., pp. 139-140.

[49] Dom Gomes esteve em Portugal, em missão pontifícia entre Março de 1436 e o início da Primavera do ano seguinte; sabemo-lo já em Florença em Maio de 1437. Cf. António Domingos de Sousa Costa, “D. Gomes, reformador da Abadia Florentina de Florença e as tentativas de reforma dos mosteiros portugueses no século XV”. Studia monastica, Vol. 5, Fasc. 1, Abadia de Montserrat (Barcelona), 1963, pp.83-87.

[50] “Foi também ele [Abade Dom Gomes] que deu hospedagem ao Infante D. Pedro, quando este veio a Florença”. in, Guido Batelli, A Crasta das Laranjas (uma lembrança de Portugal), Porto, Prometeu, 1950, p. 4.

[51] Em 1425, quando Dom Gomes esteve em missão em Portugal e Espanha, deixou à frente do mosteiro Frei Álvaro, prior claustral e quando este teve que se ausentar, designou para o mesmo cargo Frei João, ambos portugueses. Cf. Eduardo Nunes, op. cit.,  p. 80.

[52] “... claustro pequenino e verdadeira jóia da Renascença, que se chama a Crasta das Laranjeiras, porque na sua origem as arcadas eram ornadas com grandes vasos de laranjeiras. (...) É preciso ter presente que “laranja”, em italiano, chama-se vulgarmente “portugal”.in Guido Batelli, ob. cit., p.4.

[53] Cf. Eduardo Nunes, op. cit., pp. 243-48.

[54] Aos tres dias do mez de Setembro o Doutor Diogo Affonço Mangaancha leo a ostentação, e teve humas Conclusões em Direito na Igreja de S. Petronio da mesma Cidade de Bolonha, que estava pegada com o Sacro Palacio, ... ( in António Pereira de Figueiredo, e António Gomes, Portuguezes nos concilios geraes, Lisboa, 1787, p. 51).  Junto à Catedral existem, actualmente, dois edifícios: um do século XVI e o Palácio dos Notários do século XIV-XV, pelo que é provável que neste último, tivesse funcionado a residência papal, na altura em que o Conde de Ourém esteve em Bolonha.

[55] Um conjunto de 4 cartas enviadas, respectivamente  de Siena, Roma, Nápoles e Veneza a D. Afonso V, de Lopo d´Almeida (Cartas de Itália, editadas por Rodrigues Lapa, Imprensa Nacional, Lisboa, 1935), que integrava a comitiva portuguesa, escritas entre Fevereiro e Maio de 1452; uma carta dirigida  a D. Jaime, 4º Duque de Bragança, como resposta a um pedido deste, sobre a maneira como se tinham desenrolado aqueles acontecimentos, escrita entre 1496 e o início do século XVI, por Pedro de Sousa, também acompanhante da embaixada portuguesa (texto publicado por Caetano de Sousa na História genealógica da casa real portuguesa e também na obra de Lita Scarlatti,  Os homens de Alfarrobeira); e o relato Jornadas de Nicolau Lanckermann (texto traduzido por Luciano Cordeiro e está inserido na sua obra Uma sobrinha do Infante, Emperatriz da Allemanha publicada pela Imprensa Nacional, em 1894), escrito em 1503 por este emissário, enviado a Portugal como representante de Frederico III para a celebração do casamento por procuração. É de todas, a descrição mais desenvolvida que narra o que foi presenciado, desde a sua saída da Alemanha em Março de 1451 até à chegada da infanta àquele território, em Junho de 1452.

[56] Relato de Nicolau de Lanckermann, op. cit., p.125.

[57] Ibidem, p. 126

[58] Ibidem.

[59] Ibidem, p. 137.

[60] “O que tem sido ignorado, é que o mais antigo testemunho conhecido da exportação dessas obras em terracota vidrada de Florença destinou-se a Portugal, e precisamente ao Conde de Ourém. Uma anotação referente ao carregamento de 7 caixas (7 chasse di lavorj de terrachotta envetriata del Marchese di Valença) surge ao lado de embalagens de salitre e brocado de carmesim, numa lista de bens entregues a 28 de Maio de 1454 em Pisa a um Bernardo de Évora, a fim de serem embarcadas para Lisboa (che lo mãdasi a Lisbona).

Embora Sir Pope-Hennessy pense tratar-se de um medalão com escudo de armas, não podemos deixar de aproximar essa encomenda – que não seria grande a julgar pelo escasso número de peças (um retábulo podia conter de 80 a200, como os de La Verna) – de outra recentemente revelada por Mendes Atanázio: a de duas “histórias” começadas a pagar a Lucca della Robbia a 9 de Fevereiro de 1453 pelos mesmos banqueiros Cambini por conta dum “Marquês” que não identifica (sono per parte di 2 storie envetriate che fa per il marchese di portoghallo), sendo incerto se uma imagem da Virgem (Madonna Maria) mencionada a seguir tinha o mesmo destinatário. Não temos qualquer dúvida de que este era o Conde de Ourém, já que usava o título de marquês ao conduzir para a Itália a futura imperatriz, e que os dois dados documentais completam-se: as peças embarcadas em Pisa em 1454 são obviamente as mesmas que ele havia encomendado ao passar por Florença no ano anterior. Essas duas “histórias” (medalhões, sobreportas ou retábulos) destinavam-se provavelmente à sua igreja de Ourém, que o terramoto de 1755 arruinou.” in Rafael Moreira, A arquitectura do Renascimento no sul de Portugal – a encomenda régia entre o moderno e o romano, p. 16.

[61] “Ao regressar a Portugal, o Marquês de Valença deixara várias encomendas aos Cambini.”, mercadores-banqueiros florentinos através de quem, por meio dos seus procuradores em Lisboa, Bartolomeu Di Iacopo di Ser Vanni, D. Afonso recebeu, pelo menos em 1452, pagamentos para os gastos da embaixada que chefiou Cf. RAU, Virgínia, “Bartolomeo Di Iacopo Di Ser Vanni Mercador-Banqueiro Florentino «Estante» em Lisboa nos Meados do Século XV”, Separata da revista Do Tempo e da História, IV, Lisboa, 1971, pp. 99-117. “Muitas individualidades ou mercadores faziam operações mercantis e financeiras de que necessitavam, tanto em Bruges como no “levante” e na “Corte” de Roma através e por intermédio da companhia Cambini, bem como das suas filiais e correspondentes.” in Virgínia Rau, “Alguns estudantes e eruditos portugueses em Itália no século XV”, Separata da revista Do tempo e da história, V, Lisboa, 1972, p. 43.

[62]Há conhecimento de que foram realizados dois registos da princesa mas o paradeiro dos mesmos é desconhecido. Conhecem-se hipotéticas reproduções daqueles desenhos (Fig. 13), não se sabendo se terá sido pintado algum retrato a óleo. Cf. Claudine Lemaire, Michéle Henry, Anne Rouzet, Isabelle de Portugal, Duchesse de Bourgogne, 1397-1471, Bibliotèque Royale Albert Ier, Bruxeles, 1991, pp. 141 e 146 e J. Cardoso Gonçalves, O casamento de Isabel de Portugal com Filipe-o-Bom duque da Borgonha e a Ordem do Tosão de Ouro, Lisboa, Imprensa Moderna, 1930, p. 21.

[63] Cf. Claudine Lemaire, Michéle Henry, Anne Rouzet, op. cit., p. 28 e Simone Ferrari, Van Eyck El maestro flamenco de la luz, Barcelona, Electa Bolsillo, 2005, pp. 56-7.

 

In Medievalista, Ano 2, Nº. 2, 2006. em http://www.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/medievalista2/medievalista-afonso.htm



publicado por Carlos Gomes às 00:30
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