Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes de Ourém.

Domingo, 18 de Outubro de 2015
MARCAS DA MAÇONARIA NO ASSOCIATIVISMO POPULAR

Todo o objeto criado possui sempre as marcas do seu criador. A obra de arte reflete a ideia e o perfil psicológico do artista que a concebeu. De igual forma, o artesanato dá-nos a descrição mais fiel do nível cultural de um povo, revelando-nos o seu caráter e capacidade de transmitir aquilo que sente. Também as instituições nos permitem perceber o grau de desenvolvimento cultural de uma sociedade, os seus valores e o estádio de evolução humana em que se encontram, deixando em todas as situações as marcas distintivas dos seus obreiros.

cartão sócio

O associativismo popular tem entre nós origem a partir de meados do século XIX, criado sobretudo pela necessidade dos republicanos penetrarem entre as classes mais baixas da sociedade portuguesa para a atrair à sua causa e criar as condições da adesão popular á mudança do regime político.

Através dos triângulos e lojas maçónicas, foram criados em todo o país bandas filarmónicas e sociedades de cultura e recreio com o propósito de levar ao povo o ensino primário, a instrução musical, o teatro, as ocupações recreativas e a cultura popular em geral.

Quais organizações para-maçónicas, estas agremiações contavam com militantes republicanos entre os seus principais impulsionadores, os quais impunham estatutos cujas normas eram inspiradas na própria constituição maçónica. Não admira, pois, que reflexo das cisões verificadas no seio da Maçonaria e dos partidos políticos, tenham ocorrido idênticas divisões no seio de muitas coletividades. A existência no concelho do Seixal de duas coletividades rivais – a Timbre Seixalense e a Sociedade Filarmónica União Seixalense – tem a sua razão de ser nas divisões criadas pelo Partido regenerador e pelo Partido Progressista.

À semelhança do que se verificou com os jornais regionais, também eles em grande parte criados com a finalidade de difundir os ideais republicanos, as sociedades recreativas foram adaptando-se à evolução dos tempos e, sobretudo, às mudanças de regime político, não deixando porém de conservar alguns dos seus traços caraterísticos que estiveram na sua própria génese.

Entre as normas estatutárias mais relevantes que ajudam a identificar a sua origem, encontra-se a obrigatoriedade da admissão de um novo sócio ser feita através de um ou mais proponentes, existindo ainda coletividades que mantêm o costume de exibirem num quadro apropriado, durante determinado período de tempo, a ficha de inscrição do sócio proposto antes da mesma ser submetida a aprovação por parte do órgão diretivo. Na realidade, esta regra contraria o princípio da liberdade de associação, tratando-se de um procedimento apenas concebível no âmbito de uma associação a funcionar em moldes secretos e sigilosos.

Outra norma estatutária, também claramente de origem maçónica, é a que obriga o sócio ao pagamento de uma joia no ato de admissão, elemento estranho que ninguém explica do que se trata e, como é óbvio, o novo associado nunca receberá… nem questionará sequer acerca de um direito que lhe assiste!

Estas e outras práticas injustificadas são perpetuadas pelo costume e transmitidas às novas coletividades de cultura, desporto e recreio através da aprovação de estatutos que mais não são do que réplicas de outros antigos e desatualizados, copiados sem qualquer sentido crítico e reproduzindo normas que deveriam entretanto ser melhoradas ou eliminadas. Encontram-se, entre estas coletividades, as casas regionais, grupos folclóricos e um quase infinito número de associações que se dedicam às mais variadas vertentes de âmbito social, cultural, ambiental e recreativo.

Carlos Gomes / http://www.folclore-online.com/

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publicado por Carlos Gomes às 14:13
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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
SENADOR DA PRIMEIRA REPÚBLICA QUESTIONA PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA EM OURÉM!

Cinco anos após as primeiras aparições na Cova da Iria, um caso ocorrido em Vila Nova de Ourém envolvendo duas professoras de instrução primária que alegadamente não deram aula no dia em que se realizaram peregrinações a Fátima, atitude que terá motivado a abertura de um inquérito disciplinar, levou o senador Oriol Pena a questionar o Ministro da Instrução a esse respeito. O caso deu-se na Sessão do Senado realizada em 23 de Maio de 1922, sob a presidência de Manuel Gaspar de Lemos, tendo a mesma contado com a presença do chefe do governo, António Maria da Silva.

Transcrevemos do Diário do Senado a passagem respeitante à referida intervenção, mantendo a grafia original.

Senador Joaquim Xavier de Figueiredo Oriol Pena 

O Sr. Oriol Pena: "(…) Desejaria também fazer uma pergunta ao Sr. Ministro da Instrução a respeito duma notícia publicada em vários jornais sôbre um inquérito mandado fazer a respeito da ausência de duas modestas professoras de instrução primária de Vila Nova de Ourém, uma da sede do concelho, outra duma das freguesias rurais, acusadas do não terem dado aula no dia em que se fez a peregrinação a Fátima.

Parece-me, Sr. Presidente, e parece me, Srs. Senadores, que mais uma vez se violam assim os direitos consignados na Constituição e em cujo artigo 3.°, no seu n.° 4.°, se encontra, textualmente, o seguinte:

"A liberdade de consciência e de crença é inviolável".

É tam breve que não admite discussão.

O n.° 6.° do mesmo artigo proíbe que qualquer pessoa seja perseguida por motivo de religião ou perguntado acêrca da que professa.

Diz mais o n.º 7.° do mesmo artigo:

"Ninguém pode, por motivo de opinião religiosa, ser privado dum direito ou isentar-se do cumprimento de qualquer dever cívico".

Porque é que se vão perseguir estas duas desgraçadas professoras, que não podiam materialmente dar aula aos seus alunos, porque nesse dia os seus alunos não foram à escola?

Êsses alunos estavam decerto com suas famílias englobadas nas 50:000 pessoas que foram a 'Fátima, no uso de um. direito também garantido pela Constituição, no n.° 14.° do mesmo artigo 3.°5 que consigna a liberdade do direito de reunião.

Esta perseguição às duas professoras vai-se conjugar também com a proibição feita ou tentada, à ordem não se sabe de quem, se do Govêrno se da autoridade superior do distrito, ou contra instruções de qualquer delas, da reunião das pessoas que foram num espírito de devoção que não queremos discutir, e ao uso pleno de um direito que a Constituição lhes garante, a Fátima.

Para que se vai fazer um inquérito a estas duas professoras?

Para elas justificarem a sua falta? Não constará do regulamento a penalidade a impor-lhes, sem mais averiguações?

Não terá havido a respeite dos funcionários do ensino o mesmo rigor que é usado contra nós, Senadores, membros do mais alto corpo político do Estado, que sofremos descontos quando não justifiquemos as nossas faltas? E por elas terem ido, se é que foram, a essa romagem de fé?

Obedeceu o Govêrno, obedeceu o Sr. Ministro da Instrução, a quem? Aos livres pensadores locais, aos representantes do registo civil, à maçonaria?

Mal vai aos Govêrnos se obedecem a pressões de quem quer que seja, e não sabem impor a lei e a ordem a todos, sejam quem forem.

O Sr. Ministro da Guerra entra na sala.

O Orador: -Acaba de entrar o Sr. Ministro da Guerra. Eu peço a S. Exa. a fineza de transmitir ao Sr. Presidente do Ministério as observações que tenho feito sôbre o estranho facto de se ter ordenado um inquérito a duas professoras de Vila Nova de Ourém, pelo enorme e horrendo crime de não terem essas modestas funcionárias dado aula no dia era peregrinação, a Fátima!

Estranho essa perseguição não sei bem o motivo que a possa ter determinado, mas suspeito que representa uma transigência do Govêrno com ordens vindas de baixo, dos elementos que, a pretexto de defesa do regime, são causa de perturbações.

Julgo tal inquérito absolutamente atentatório da liberdade de consciência, liberdade que, seja a quem fôr, é garantida pela, Constituição.

Agitando um exemplar da Constituição.

Pregunto a V. Exa. se isto que aqui tenho, e onde há pouco li alguns artigos, é o estatuto pelo qual todos nós temos de nos regular ou é simplesmente um farrapo de papel que qualquer Ministro ou delegado do Govêrno possa violar e rasgar a seu bei prazer.

Disse-se que a organização dêste documento custou ao país cêrca de 70.000$ que são, na miséria da moeda que actualmente corre, quantia bem próxima de 1:000.0000.

Que não sirva o documento, mandado lavrar pelo regime e sempre lembrado, para nos exigir deveres, só para isso; mas que, ao menos, nos garanta também os direitos que nela se consignam.

O Sr. Presidente do Ministério entra na sala,

O Orador: - Ainda bem que acaba de entrar o Sr. Presidente do Ministério, pois nesse caso faço directamente a S. Exa. a minha reclamação.

O orador repete as considerações já feitas anteriormente, desenvolvendo-as um pouco mais e continuou:

O Sr. Presidente do Ministério sabe incito bem o que aconteceu a um dos homens de maior relêvo na República quando, querendo deixar dois filhos seus a educar num colégio da livre Suíça, se dirigiu a um dêsses estabelecimentos de ensino. O chefe ou director dêsse colégio preguntou:

"Que religião quere para seus filhos?"

"Nenhuma, respondeu o super-homem da República".

E teve imediatamente, sem a menor hesitação, a resposta:

"Desde que V. Exa. faz essa afirmação, tam peremptória, de querer os seus filhos fora de qualquer confissão religiosa, sinto dizer-lhe que: "nem no meu colégio, nem em qualquer outro colégio da Suíça poderão ser recebidos!".

Não me inquieta a religião que queira adoptar para os seus filhos, que sejam maometanos, budistas, israelitas, protestantes ou católicos, que tenham a religião que os pais quiserem, mas que tenham uma".

Entre nós tem-se procedido absolutamente ao contrário; tem-se procurado fazer que todas às religiões sejam antagónicas da religião católica e só esta tem sido perseguida nas suas devoções.

Eu afirmo a V. Exa. que não sou um clerical, longe disso; que não sou sequer suspeito de clericalismo e que estou a fazer esta reclamação em nome dos direitos que nós temos e que não desejo ver ofendidos mais uma vez.

Como não quero cansar a Câmara, que nenhum empenho pode ter em ouvir o meu desataviado verbo, vou terminar, agradecendo ao Sr. Presidente do Ministério a maneira como atendeu as reclamações que eu fiz e que lhe foram transmitidas pelo Sr. Ministro da Agricultura, a quem também aqui junto os meus agradecimentos.

Peço, por isso, a S. Exa. O que renove as providências necessárias e urgentes para a repressão do jôgo, como S. Exa. já mais de uma vez prometeu.

Peço, também, que se dêem ordens terminantes para que sejam respeitados todos os direitos que a Constituição conferiu a todos os portugueses, sem distinção.

Tenho dito.

O Sr. Presidente do Ministério e Ministro do Interior (António Maria da Silva): - Sr. Presidente: o Sr. Oriol Pena chamou a atenção do Govêrno, e mais especialmente a minha atenção, para dois factos: um que corre pela pasta da instrução, fazendo considerações de carácter religioso; outro que se refere a medidas para a repressão do jôgo.

Eu devo dizer que manterei todas as providências que tenho tomado até agora para a repressão do jôgo, insistindo pelo seu cumprimento, renovando as ordens dadas e chamando, seja quem fôr, à obediência delas. Mas já aqui disse que as disposições legais, quanto à repressão do jôgo, não têm valor nenhum, porque as pessoas que têm por dever fazê-las cumprir limitam-se simplesmente a admoestar.

Se se pretende, neste país, reprimir o jôgo, como o exige o Código Penal, é quási uma ingenuidade querer fazê-lo com a legislação actual, e por isso entendo que seria conveniente ser o assunto versado em qualquer das casas do Parlamento, para de uma vez para sempre o Congresso da República dizer da sua justiça, isto é, ser defensor da regulamentação do jôgo, embora em casos muito restritos, ou ser pela sua repressão eficaz, e por essa forma habilitar o Govêrno com os meios suficientes para proceder em harmonia com o seu pensar.

No que respeita ao assunto que corre pela pasta da instrução, devo dizer que conheço bem o carácter do Sr. Ministro da Instrução, e, que eu saiba, até agora, não castigou S. Exa. ninguém por qualquer credo religioso. O Govêrno de que tenho a honra de fazer parte, o que deseja é que as manifestações de carácter religioso estejam em harmonia com a lei.

Quanto ao caso de Fátima, é um "caso para ponderar, e não é demais que aqueles que são livres pensadores entendam assim, porquanto um ilustre membro do episcopado português, o Sr. Bispo de Leiria, nomeou uma comissão canónica para esclarecer o assunto. Ora se um ilustre membro do episcopado ainda tem dúvidas sôbre êsse caso, não se deve andar a mistificar o público.

Mas se realmente o facto fôr verdadeiro, e para aqueles que acreditam, o caso poderá até tornar-se uma fonte de receita para o Estado, como sucede na França, onde, com êsse fundamento, se explora uma parte do seu território."



publicado por Carlos Gomes às 08:48
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