
CARNAVAL E NÓDOAS NEGRAS
Estávamos em fins de Fevereiro, que tinha sido bastante frio e chuvoso. Porém, nessa manhã, o sol brindou-nos com os seus raios mornos e luminosos.
Eram quase nove horas, e eu encaminhava-me para a escola e, diga-se de passagem, sem vontade nenhuma. Ah, que vontade de fazer “gazeta”; correr pelos campos da minha aldeia, subir às árvores para contemplar o horizonte, já que, os passarinhos ainda não tinham começado a fazer os respectivos ninhos que eu tanto gostava de procurar e que me tinha valido o epíteto de Maria rapaz, ou ainda simplesmente, sentar-me no tronco carcomido da velha árvore do meu quintal, a observar o laborioso trabalho das formigas. A antevisão da “menina – de – cinco - olhos”, nome porque era conhecida a régua de madeira com que a professora nos mimoseava, sempre que nos portávamos menos bem, fizeram-me estugar o passo para não chegar atrasada.
Como sempre, eu era a última a entrar na casa velha que nos servia de escola. Era tão velha e fria, que quando chovia, tínhamos que andar a põe recipientes em vários sítios para que o chão não ficasse inundado. Casa de banho? Era um luxo que desconhecíamos. Era o grande e velho pátio que circundava a casa, que se destinava às necessidades fisiológicas. Depois de cantarmos o Hino Nacional e rezar a oração do dia, (ritual obrigatório), cada aluno se sentava na sua velha carteira e começava a fazer a cópia de uma página do livro de leitura. O silêncio era sepulcral. O mais pequeno ruído, era severamente castigado.
Com a ardósia, a que chamávamos lousa, na minha frente e o lápis de pedra na mão, preparava-me também para dar início ao meu trabalho quando uma borboleta multicolor se lembrou de poisar no parapeito de uma janela sem vidros, os quais quando chovia ou fazia vento eram substituídos por velhos jornais, deixando a escola numa espécie de penumbra. Eu bem me esforçava para começar o trabalho, mas, o raio da borboleta parecia desafiar-me para ir voar com ela. Ora rodopiava, ora batia as asas, que brilhavam como gotículas do arco-íris, ora voltava a poisar no velho parapeito da janela, como que num tentador convite à brincadeira.
Tal desafio, era demais para mim. Levantei-me e pedi:
-Senhora professora dá licença de ir lá fora?
Era dessa maneira que cada aluno daquela escola primária, em todos os sentidos, pedia sempre que necessitava de ir à citada casa de banho.
-Ainda agora entras-te e já queres ir lá fora? Perguntou a professora, que sem eu dar por isso, me observava há algum tempo.
Cruzando as pernas e pondo as mãos na barriga, numa atitude suplicante, reforçava assim o meu pedido.
Dada a respectiva autorização, corri porta fora com a intenção de ir apanhar a lindíssima borboleta. Quando me aproximei, a patifa levantou voo ao redor do pátio, e eu, sempre a correr atrás dela; por fim, poisou no ramo mais alto da gigantesca árvore que havia no pátio. Sem pensar duas vezes, qual gato selvagem, trepei rapidamente, na mira de a apanhar, mas, a malvada, voltou a fugir e desta vez para sempre. Desanimada, voltei para a escola. Mal entrei, já a professora me esperava com a repelente régua na mão. A um sinal, bem conhecido de todos, Aproximei-me para receber o castigo. Ela tinha o hábito de por o pé na travessa da velha secretária, ficando com o joelho dobrado, sempre que se preparava para aplicar um castigo; nós estendia-mos a mão que ela segurava com a dela, e, com a régua na outra mão, dava com força as respectivas reguadas, conforme o castigo a aplicar.
À primeira reguada, toda eu me encolhi gemendo de dor. Como não sabia quantas viriam a seguir, retirei a mão num repelão, e a reguada seguinte que já ia no ar, caiu com toda a força no joelho da professora que deu um grito estridente, tal era a dor e o inesperado da surpresa, pois nunca nenhum aluno tivera a ousadia de retirar a mão. Sem mais delongas, corri da escola para casa indo refugiar-me debaixo da cama, meu esconderijo predilecto.
Pouco tempo depois, já a professora estava a chamar os meus pais para fazer queixa da minha irreverência; por mais que apurasse os ouvidos, não consegui captar nada do diálogo travado entre eles. Chegada a hora do almoço, como a fome apertasse, fui para a mesa. Para minha surpresa, a minha mãe não se referiu ao ocorrido, embora eu tivesse passado horas a preparar o corpo mentalmente, para a inevitável sova de tamanco, que minha mãe manejava na perfeição, sempre que eu fazia das minhas, como ela dizia.
Comi com apetite julgando o caso encerrado, embora me parecesse inverosímil a falta de alusão ao sucedido. No fim do almoço, a minha mãe sentenciou:
-Sabes o que fizeste; o teu castigo, vai ser não sair à rua no dia de Carnaval.
Eu, que só parava em casa quando a isso era obrigada, preferia três ou quatro sovas de tamanco, a ter que passar o Carnaval fechada. Embora nesse tempo, 50 anos, se chamasse Entrudo e não fosse como é hoje.
Não havia fatos e enfeites inerentes á época à venda em qualquer parte, como agora, mas divertíamo-nos com coisas mais simples e bem mais económicas pois socorríamo-nos do engenho em transformar os disfarces com a prata da casa conforme a bolsa e a imaginação.
Faltavam cinco dias para o Carnaval, e eu, apelava a toda a minha imaginação, de dez anos, para poder ir para a rua sem ser descoberta. Por fim, comecei a vislumbrar uma luz ao fundo do túnel da minha mente, e quando chegou o almejado dia, já eu tinha tudo preparado para ir para a rua sem ser reconhecida. Tinha despojado um espanta-pardais de um vizinho de toda a sua indumentária, e como não me convinha nada ir de cara descoberta, fui-me a um cobertor de pura lã de ovelha que tinha na cama, e cortei-lhe uma barra que tinha mais escura. Com a ajuda de cola e arames, consegui fazer uns soberbos bigodes e uma venerável barba que me tapavam quase todo o rosto.
Ataviada com os andrajos do espantalho e com as respectivas barbas e bigodes, peguei numa cesta de vime, uma garrafa, um saco e um cajado e, às escondidas, lá consegui sair para a rua. Bati a todas as portas pedindo esmola sem que ninguém ma negasse. As pessoas, julgavam-me um anão mudo, dado a minha franzina estatura e as veneráveis barbas que me chegavam quase até à cintura.
Já mal podia com a cesta cheia de toda a espécie de géneros alimentícios. Batatas, pedaços de pão centeio, chouriços, toucinho, algumas moedas, e até a garrafa já estava cheia de azeite. Ninguém me reconheceu. Até as outras crianças minhas amigas, fugiam de mim a sete pés, com medo do enorme cajado que eu levantava de cada vez que alguma se aproximava para evitar que alguma mais atrevida me puxasse pelas barbas e lá se ia tudo quanto Maria ganhou como se costuma dizer.
Por fim, exausta, sentei-me ao sol atrás de um muro a contar os tostões que havia recebido. Parecia incrível. Eu tinha ali, uma verdadeira fortuna. Nada mais, nada menos que onze escudos e setenta centavos. Esta quantia em 1953, era na verdade muito dinheiro, mas o que mais me preocupava de momento, era a maneira de me desfazer do azeite e dos restantes géneros alimentícios. Devolvi os andrajos ao espantalho, escondi os géneros debaixo da palha, destinada aos animais domésticos, o dinheiro no buraco de uma parede, e fiquei à espera que surgisse uma ideia válida.
Dormi mal nessa noite; mas pela manhã, surgiu como por milagre, a oportunidade de me desfazer do meu “delito”.Acabara de chegar à minha aldeia o ti Zé albardeiro. Tinha essa alcunha devido à sua profissão, que era a de fazer albardas e outros arreios para animais.
Como já vinha sendo hábito, hospedava-se com a mulher e um rancho de filhos pequenos perto de nossa casa, e enquanto ele trabalhava, os filhos iam mendigar porque o parco salário do pai, era insuficiente para alimentar tantas bocas esfomeadas.
Cheia de alegria, fui ofertar-lhe tudo o que tinha angariado no dia anterior, menos o dinheiro, que era o meu tesouro secreto.
Costuma dizer-se; quando a esmola é grande, o pobre desconfia. Mal virei costas, a mulher do albardeiro que tinha tanto de pobre como de séria, foi logo dar conhecimento à minha mãe, julgando que eu tinha tirado tudo de casa sem o consentimento dela. Vi-me obrigada a contar todas as peripécias, omitindo, deliberadamente, o modo que encontrei para confeccionar as barbas.
Esquecendo a proibição de não ir à rua no Carnaval, contra todas as minhas piores previsões, a minha mãe desatou a rir às gargalhadas, contagiando os presentes, entre os quais, talvez fosse eu a que ria mais, vá-se lá saber porquê. Claro que, quem ganhou uma majestosa ceia inesperada, foi a família do ti Zé albardeiro que ficou muito contente, e eu também, por poder ofertar algo que tinha sido ganho por mim, embora por vias um pouco prosaicas.
Passada uma semana, quando procedia à mudança das roupas das camas, é que a minha mãe viu, o meu cobertor feito em dois, pois a barra mais escura que eu cortara para fazer as barbas, estava mesmo ao centro do cobertor.
É escusado dizer que, na mesma hora, o tamanco dançou de tal maneira que durante 15 dias mal me podia sentar devido às nódoas negras que tinham ficado em certo sítio.
Graziela Vieira
OURÉM

A minha bisavó contou-me outrora
O que a bisavó dela lhe contou
A història de uma família "moura"
Que em tempos em Mirandela habitou.
Andava muito acesa a (Inquisição)
E muitas amizades traiçoeiras!
Pra não serem alvo de delação,
Inventaram as famosas alheiras.
Constava da receita original
Carne de aves, de vaca, azeite e pão.
Mais alhos, colorau e algum sal
E assim ludibriaram a Inquisição.
Depois a receita alterou-se um pouco
Á medida que os anos decorriam
Passou a juntar-se-lhe carne de porco
E todas as famílias as faziam
Graziela Vieira
Notícias de Mirandela em 15/2/2002
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