Espaço de informação e divulgação da História, Arte, Cultura, Usos e Costumes das gentes de Ourém.

Domingo, 1 de Fevereiro de 2015
REI D. CARLOS FOI ASSASSINADO HÁ 107 ANOS

Passa hoje precisamente 107 anos sobre a data em que o rei D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço.

Nascido em Lisboa, no Palácio da Ajuda, a 28 de setembro de 1863, D. Carlos I foi o pioneiro da Oceanografia em Portugal. Ele é, pois, a agulha que norteia todos quantos se dedicam ao estudo e investigação na área das ciências do mar.

A História dos povos não é obra do acaso. Portugal, nação de marinheiros, quatro séculos decorridos das grandes navegações quinhentistas, regressa de novo ao mar, desta feita partindo à descoberta das profundezas do oceano. E, tal como no passado, jamais os portugueses poderiam ter outro timoneiro que não fosse o seu próprio Rei!

Desde 1889 até ao seu falecimento, D. Carlos I foi Rei de Portugal. Foi também diplomata, pintor, aguarelista e desportista. Mas é, sobretudo, como homem de ciência que emerge em toda a sua grandeza. A ele deve Portugal o grande contributo para o lançamento das bases da oceanografia portuguesa ao impulsionar de forma sistemática o estudo e investigação científica do mar.

O Rei D. Carlos I era um espírito atento e aberto às ideias do tempo e às realizações da ciência. Acolhia sempre com grande interesse as novidades do progresso, vendo nelas as vantagens que proporcionavam para o quotidiano. Com o aparecimento da luz elétrica, fez planos para a eletrificação da iluminação pública das ruas de Lisboa e procedeu à sua instalação no Palácio das Necessidades.

Como português, sentiu naturalmente o apelo do mar que se transformou numa verdadeira paixão. O seu interesse pela oceanografia herdou-o provavelmente de seu pai, o Rei D. Luís I que também foi um importante patrocinador de diversos projetos científicos nesta área. Porém, as profundas transformações sociais que então o país registava, deverão ter sido decisivas para a sua entrega empenhada à investigação do mar.

Mas, também como pintor, D. Carlos I encontra-se entre os maiores vultos do seu tempo no que se refere à pintura naturalista. Porém, não cultivou a arte pela arte. Antes a colocou ao serviço da ciência. As suas aguarelas representam objetos realistas num cenário natural, documentando o que via procurando retratar a natureza com a maior exatidão possível, descrevendo na tela as cores e a luminosidade. É isso que explica o fato dos seus diários e relatórios serem simultaneamente obras de arte repletas de aguarelas e despertarem idêntico interesse também entre os estudiosos e apreciadores de arte.

A partir da segunda metade do século XIX, Portugal recuperava de um certo atraso económico devido às guerras liberais e à Patuleia. Os governos de Fontes Pereira de Melo imprimiram ao país um período de grande desenvolvimento, industrialização e fomento de obras públicas. A população quase duplicou, passando a concentrar-se sobretudo nas grandes cidades. Havia, pois, que providenciar o acesso a novos recursos alimentares para uma população cada vez mais numerosa. E, uma vez mais, qual viveiro aparentemente inesgotável, o mar apresentava-se como o nosso desígnio.

Mas não era apenas o fomento das pescas que movia o Rei D. Carlos I. O conhecimento do mar podia fornecer respostas para inúmeras preocupações de ordem científica que então interessavam os investigadores. As questões relacionadas com a origem da vida e a evolução das espécies, a existência provável de vida e de fosseis vivos nas profundidades abissais, as relações entre os fosseis de animais invertebrados e a fauna então existente encontram-se entre as preocupações que então despertavam o interesse dos cientistas na Europa e nos Estados Unidos da América.

Havia ainda mais: o estudo do oceano poderia proporcionar um conhecimento mais exato da agitação marítima e outros aspetos relacionados com as condições do mar, de modo a possibilitar uma navegação mais segura e o salvamento de náufragos.

A visão do Rei D. Carlos I não podia ser mais acertada e atual. O mar não é somente um viveiro de recursos piscícolas como guarda ainda no seu ventre enormes riquezas, matérias-primas e fontes de energia que fazem falta aos países mais industrializados. Não admira, pois, que decorrido pouco mais de um século desde a realização das campanhas oceanográficas dirigidas por D. Carlos I, os portugueses se façam uma vez mais ao mar, desta feita para desvendar os segredos da Plataforma Continental e, das suas entranhas, resgatar as imensas riquezas que lá se escondem.

Durante milhares de anos, o mar era apenas encarado como um espaço onde se desenvolviam as rotas comerciais e um palco onde se travavam grandiosas batalhas navais com vista a proteger os navios mercantes e assegurar o seu domínio. Apesar do enorme avanço das ciências náuticas, sobretudo à época dos Descobrimentos Portugueses, o mar continuava a ser um completo desconhecido.

Carlos I patrocinou, organizou e dirigiu então a realização de campanhas oceanográficas, nas quais ele próprio participou. Desse trabalho de investigação procurou tirar o melhor partido do desenvolvimento técnico e científico que já então se verificava no domínio da oceanografia.

Ao iniciar a publicação dos resultados preliminares do seu primeiro cruzeiro, o Rei D. Carlos I deixou as seguintes e elucidativas palavras: «As numerosas investigações oceanographicas, que as nações estrangeiras têem realizado n’estes últimos annos, com tão profícuos resultados, a importancia que esta ordem de estudos tem para a industria da pesca, uma das principaes do nosso paiz, e a excepcional variedade de condições bathymetricas, que apresenta o mar que banha as nossas costas, sugeriram-nos no anno findo a idéa de explorar scientificamente o nosso mar, e o dar a conhecer, por meio de um estudo regular, não só a fauna do nosso plan’alto continental, mas também a dos abysmos, que, exemplo quasi unico na Europa, se encontram em certos pontos, a poucas milhas da costa.»

Entre 1896 e 1907, D. Carlos I reuniu à sua volta uma equipa de cientistas que estudaram a fauna marinha na costa portuguesa. Sob a sua sábia orientação, realizaram levantamentos hidrográficos que levaram ao reconhecimento de profundos vales submarinos próximo do Cabo Espichel. Efetuaram colheitas de plâncton. Realizaram ensaios com flutuadores para o estudo das correntes de superfície e procederam ao inventário metódico de aves e espécies piscícolas.

Os estudos efetuados abrangeram domínios tão diversos como a hidrografia e o estudo das correntes oceânicas, colheita de sedimentos e medição de temperaturas, a captura de espécies marinhas e ornitológicas. Analisaram-se as correntes e a topografia dos fundos oceânicos.

O objetivo principal era o conhecimento exaustivo da fauna marítima, especialmente aquela que apresentava maior valor económico para a pesca. Esperava-se também, por via do estudo das espécies, desenvolver métodos mais eficazes de captura do pescado.

Uma vez que não era viável instalar todos os aparelhos a bordo com vista ao tratamento das espécies recolhidas e de outras amostras, D. Carlos I criou em Cascais o Laboratório de Biologia Marítima, devidamente equipado com aquários e dotado de água corrente do mar, para apoio às suas pesquisas.

À medida que o trabalho se desenvolvia e os meios navais disponíveis se tornavam mais limitados, D. Carlos I promovia a substituição do próprio iate por outro que, possuindo maiores dimensões, dispusesse de capacidade para ser utilizado nas missões. Os investigadores puderam, desse modo, contar sucessivamente com a utilização de quatro navios aos quais foi sempre atribuído o nome da sua própria esposa, a Rainha D. Amélia de Orleães e Bragança.

Como sábio que era, o Rei D. Carlos I tinha a plena consciência da necessidade de dotar a investigação científica dos meios necessários ao seu desenvolvimento, sem os quais o país não poderia alcançar os resultados esperados.

Entre 1896 e 1907, realizaram-se 12 campanhas oceanográficas a bordo dos iates “Amélia”. Fizeram-se ensaios com flutuadores para o estudo das correntes de superfície. Efetuaram-se colheitas de plâncton. Inventariou-se a fauna e alguns dos biótipos mais característicos da Baía de Cascais, das zonas lodosas da costa, da foz do rio Tejo e dos vales submarinos do Cabo Espichel. Estudou-se os problemas relacionados com a pesca do atum no Algarve. Promoveu-se o inventário e a classificação das espécies que povoam os mares portugueses.

Em resultado das suas pesquisas, D. Carlos I reuniu uma coleção zoológica de incalculável valor histórico e científico que tem vindo a servir de base à realização de diversos estudos, nomeadamente sobre peixes e crustáceos. As suas mostras marcaram presença em muitos salões internacionais, com os exemplares mais curiosos e raros da nossa fauna marinha. De novo, os cientistas e marinheiros portugueses deslumbraram o mundo com as suas descobertas!

A sua coleção inclui também os instrumentos utilizados nas suas campanhas oceanográficas, numerosas aguarelas de sua autoria e vasta documentação e bibliografia relacionada com a atividade científica que empreendeu.

O Rei D. Carlos I guardava este precioso acervo no Palácio das Necessidades. Tencionava aí criar um Museu Oceanográfico cuja grandiosidade seguramente em nada ficaria a dever ao Museu Oceanográfico do Mónaco, criado pelo Príncipe Alberto I, com quem partilhou o interesse pela oceanografia.

Mas os tempos eram já conturbados e nem sempre as ambições políticas levam em consideração o interesse nacional. Nesses anos longínquos do início do século XX, enquanto o Rei D. Carlos I trabalhava com afinco para dotar o país de meios científicos que permitissem suprir as dificuldades, a situação política deteriorava-se. E, com ela, o país mergulhava numa grave crise económica.

Procurando retirar o país da situação em que se encontrava, o Rei acabaria por ser atingido no fogo cruzado do ódio e lutas partidárias. O regicídio veio interromper de forma abrupta a obra que D. Carlos I vinha realizando.

Após a sua morte, as coleções que o soberano reuniu ficaram à guarda da Liga Naval Portuguesa que, no Museu de Marinha, criou a Secção Oceanográfica D. Carlos I. Encontrava-se então instalado no Palácio do Calhariz, em Lisboa, pertencente aos Duques de Palmela.

Em 1929, foi extinta a Liga Naval Portuguesa e as coleções transitaram para o Museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais. E, só em 1935, foram doadas ao Aquário Vasco da Gama-Estação de Biologia Marítima. Na mesma altura, foi também oferecida ao Aquário Vasco da Gama a Biblioteca Científica do Rei D. Carlos I.

Pelo caminho, muitos foram os exemplares e outras peças de elevado interesse que se perderam ou se degradaram. Deveu-se este atribulado percurso à instabilidade vivida em Portugal nas primeiras décadas do século XX. Apesar de tudo, chegou até aos nossos dias um legado de incalculável valor histórico e científico, estreitamente ligado ao nascimento da moderna oceanografia em Portugal.

Carlos I deixou-nos também obra publicada cujo mérito científico é unanimemente reconhecido. São exemplo:

“Yacht Amélia. Campanha oceanográfica de 1896”, publicado em 1897;

“Pescas marítimas, I - A pesca do atum no Algarve em 1898. Resultados das Investigações scientificas feitas a bordo do yacht “Amélia” e sob a direcção de D. Carlos de Bragança”, publicado em 1899;

Ichthyologia. II - Esqualos obtidos nas costas de Portugal durante as campanhas de 1896 a 1903. Resultados das Investigações scientificas feitas a bordo do yacht “Amélia” e sob a direcção de D. Carlos de Bragança, publicado em 1904.

Para além do seu exemplo pioneiro e dos estudos que nos legou, D. Carlos I deixou-nos ainda as ferramentas com que se prosseguiram os trabalhos de investigação por si iniciados. Foi a bordo do iate “Amélia”, entretanto rebatizado com o nome “5 de Outubro”, que a partir de 1913, foram retomados os cruzeiros oceanográficos com vista à realização de estudos no âmbito da cartografia e dos sedimentos. E, em 1923, sob a orientação técnica do Dr. Magalhães Ramalho, da Estação de Biologia Marítima de Lisboa, efetuou-se o reconhecimento geral e sistemático das condições oceanográficas ao largo da costa de Portugal.

Por fim, o Rei D. Carlos I legou-nos a perceção da pluridisciplinaridade e interdisciplinaridade das ciências e técnicas do mar. E, acima de tudo, uma enorme paixão pelo mar!



publicado por Carlos Gomes às 14:49
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Sábado, 28 de Dezembro de 2013
INSTITUTO HIDROGRÁFICO HOMENAGEIA ALMIRANTE SOUSA LEITÃO

Almirante Sousa Leitão era natural de Santarém

Realizou-se no passado dia 14 de novembro de 2013, uma sessão de homenagem do Instituto Hidrográfico ao Almirante António Egídio de Sousa Leitão. Esta sessão contou com a presença da Sra. D.ª Maria Alexandra Magalhães Galhardo Leitão, viúva do homenageado, dos seus filhos – Dr. Rui Galhardo Leitão e o Comandante Nuno Galhardo Leitão, e restantes familiares, do Presidente da Academia de Marinha, Almirante Vieira Matias, do Diretor-geral - Autoridade Nacional de Segurança, Vice-almirante Torres Sobral, do Prof. Doutor Neto Pereira da Sociedade de Geografia de Lisboa, do Inspetor Geral da Marinha e Superintendente dos Serviços do Material, Vice-almirante Macieira Fragoso, do Diretor-geral da Autoridade Marítima, Vice-almirante Cunha Lopes, entre outros ilustres convidados.

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Esta sessão teve início com uma alocução proferida pelo Diretor-geral do IH, Contra-almirante Silva Ribeiro, onde agradeceu a presença de todos os convidados e salientou a importância da “vida e obra do Almirante Sousa Leitão, que constituem um referencial inspirador para as novas gerações; são um enorme património do Instituto Hidrográfico, da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Marinha que tanto amou…”.

Seguiu-se a evocação do Almirante Sousa Leitão, pelo Dr. Carlos Gomes, do Centro de Documentação e informação do Instituto Hidrográfico, cujo discurso apresentado se encontra disponível na íntegra aqui .

Posteriormente foi descerrada a placa de homenagem que atribui o nome do Almirante António Sousa Leitão à Divisão de Oceanografia do Instituto Hidrográfico, pela Sra. D.ª Maria Alexandra Galhardo Leitão, pelo justo reconhecimento que é devido àquele que na realidade constitui um dos vultos maiores que integram o panteão da Hidrografia portuguesa. O evento terminou com um porto de honra no Salão Nobre Pedro Nunes.

Evocação do Almirante Sousa Leitão pelo Dr. Carlos Gomes, do Centro de Documentação e informação do Instituto Hidrográfico

Exmª Srª D. Maria Alexandra Magalhães de Castro Galhardo Leitão

Exmº Sr. Dr. Rui Galhardo Leitão

Exmº Sr. Comandante Nuno Galhardo Leitão

Senhor Presidente da Academia de Marinha

Senhor Almirante Diretor-geral do Gabinete Nacional de Segurança

Senhor Secretário-perpétuo da Sociedade de Geografia de Lisboa

Senhor Almirante Superintendente dos Serviços de Material

Senhor Almirante Diretor Geral da Autoridade Marítima

Senhor Almirante Diretor-geral do Instituto Hidrográfico

Senhores Oficiais Generais

Ilustres convidados

Senhoras e Senhores

É para mim uma honra e uma enorme responsabilidade falar aqui e agora acerca da grande personalidade que foi o Senhor Almirante António Egídio de Sousa Leitão. Devo esse privilégio ao convite que me foi formulado pelo Senhor Almirante Silva Ribeiro, Diretor-geral do Instituto Hidrográfico, o que desde já muito agradeço.

Para esta apresentação, socorri-me das informações contidas no livro da autoria conjunta do sr. Almirante Silva Ribeiro e do sr. Comandante Reis Arenga, acerca do sr. Almirante Sousa Leitão, publicado no ano 2000, cuja autorização também agradeço.

Passam aproximadamente trinta anos quando, nesta casa, me cruzei com o Almirante Sousa Leitão e tive a oportunidade de o cumprimentar pessoalmente. Na qualidade de Chefe do Estado-Maior da Armada, fazia então o senhor Almirante Sousa Leitão uma visita oficial ao Instituto Hidrográfico. Retive desses breves instantes a memória de uma pessoa de trato afável e cortês. É-me, pois, bastante grato, proferir estas breves palavras que, apesar de singelas, procuram homenagear um dos grandes vultos da nossa Marinha e do Instituto Hidrográfico.

O Almirante Sousa Leitão foi um dos mais reputados engenheiros hidrógrafos do nosso tempo.

Entre outros cargos que desempenhou nesta área, coube-lhe chefiar a Missão Hidrográfica de Moçambique e comandar o navio hidrográfico “Almirante Lacerda”, tendo participado na Expedição Internacional do Oceano Índico que então se realizou.

No Instituto Hidrográfico, chefiou os Serviços de Hidrografia, Navegação e Oceanografia e foi Diretor-geral entre 22 de outubro de 1976 e 11 de julho de 1977.

Mas, comecemos pelo princípio.

António Egídio de Sousa Leitão de seu nome completo, nasceu a 16 de setembro de 1926, em Santarém, cidade que também serviu de berço a figuras notáveis da nossa História como o navegador João de Santarém e o eminente cartógrafo que foi o Visconde de Santarém. E serve, igualmente, de túmulo, ao ilustre navegador Pedro Álvares Cabral. Não admira, pois, o orgulho que o Almirante Sousa Leitão nutria pela sua cidade, terra onde fenícios, gregos e cartagineses um dia aportaram e cujas origens nos remetem para a lenda de Santa Iria que dá o nome à freguesia onde nasceu.

Foi ainda em Santarém que efetuou os estudos liceais no Liceu Sá da Bandeira, sempre com a mais elevada classificação, revelando desde cedo tratar-se de um aluno brilhante cujo caráter iria manter ao longo de toda a vida.

O Almirante Sousa Leitão descendia de uma família de militares. Era seu avô paterno o General Pires Leitão que foi um dos participantes na revolução nacional de 28 de maio de 1926. O seu avô materno era o major Egídio Augusto de Sousa que pertencia à guarnição do Regimento de Cavalaria 4. O seu pai, Dr Ruy da Silva Leitão, era assistente da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra quando foi mobilizado para o Corpo Expedicionário Português que combateu na Flandres por ocasião da Primeira Guerra Mundial.

Pelo ambiente familiar que o rodeava e pelo seu próprio caráter e espírito de rigor, o perfil daquele que viria a ser o Almirante Sousa Leitão estava talhado para seguir a carreira militar e a investigação

Após cursar, com elevada classificação, o primeiro ano da Faculdade de Ciências de Lisboa, ingressou na Escola Naval em Setembro de 1944, onde concluiu o Curso de Marinha como primeiro classificado.

Em 1952, foi enviado para os Estados Unidos da América a fim de frequentar o curso anual de Eletrónica, o “Electronics Officers Course”, em Great Illinois, na Universidade da Califórnia.

Em 1954, foi admitido à frequência do curso de engenheiro hidrógrafo, o qual concluiu em dezembro de 1959. Ao tempo, completou as formaturas em Engenharia Geodésica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em Engenharia Portuária pelo Instituto Superior Técnico, e ainda com o aperfeiçoamento em Eletrotecnia, sempre com as mais altas distinções.

Durante este período, enriqueceu a sua formação académica com estágios que frequentou no Observatório Astronómico da Ajuda, no Instituto Geográfico e Cadastral, na Direção-geral de Portos e na Divisão de Hidráulica Marítima do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Entretanto, em novembro de 1953, foi nomeado Diretor da Estação Radionaval de Lisboa (Algés e Monsanto), cargo que exerceu até outubro de 1954.

Em abril de 1959, foi colocado na Missão Hidrográfica de Moçambique, a qual veio a chefiar de novembro de 1961 a novembro de 1967. E, de abril de 1962 a janeiro de 1968, passou a comandar o navio hidrográfico “Almirante Lacerda” que estava atribuído a esta Missão Hidrográfica.

Ao longo deste período, participou e dirigiu numerosos trabalhos científicos, dos quais se destacam os quatro cruzeiros oceanográficos realizados na área do canal de Moçambique, integrados na Expedição Internacional do Oceano Índico, para a qual foi necessário adaptar o navio hidrográfico “Almirante Lacerda” a navio oceanográfico.

De referir ainda a conclusão da geodesia da costa portuguesa do lago Niassa e do levantamento das águas pertencentes a Portugal. Deste trabalho, resultou a publicação de cinco folhas com cartas e planos de baías e fundeadouros, trabalhos que se revelaram da maior importância para o restabelecimento da soberania naquela zona fronteiriça. Foi elaborado o “Roteiro da Costa Portuguesa do lago Niassa”, efetuaram-se levantamentos hidrográficos e publicaram-se as respetivas cartas relativas a diversos portos de Moçambique, incluindo o estudo das suas condições hidrográficas.

Em 1965, na qualidade de membro da Comissão Técnica de Planeamento e Integração Económica, publicou o estudo “Possibilidades hidrográficas dos portos de Moçambique”, trabalho este que constituiu uma análise das capacidades portuárias daquele território. Em 1966, com base no levantamento hidrográfico executado nesse ano e nas dragagens entretanto efetuadas, publicou nos Anais do Instituto Hidrográfico o artigo “Evolução Hidrográfica de Quelimane”.

Em 1967, regressou a Lisboa e foi colocado no Instituto Hidrográfico. Foi nomeado Diretor dos Serviços de Hidrografia, Navegação e Oceanografia, cargo que desempenhou até novembro de 1976. Foi precisamente no exercício destas funções que veio a ser surpreendido pelo incêndio que, a 18 de fevereiro de 1969, ocorreu nas antigas instalações do Instituto Hidrográfico, na rua do Arsenal.

Após a tragédia, havia que transferir o Instituto Hidrográfico para as instalações onde nos encontramos, na rua das Trinas. Tornava-se necessário apetrechar e modernizar os serviços que entretanto viram o seu equipamento destruído. Era imprescindível prosseguir a publicação das cartas náuticas e dos grupos de avisos aos navegantes. O Instituto Hidrográfico não podia suspender a sua atividade enquanto procedia à sua reinstalação.

Sob a sua orientação, foi possível vencer os obstáculos e retomar a atividade normal. Mais ainda, conseguiu-se reeditar todo o fólio de cartas náuticas que foram destruídas no incêndio.

Em dezembro de 1976, foi promovido a Comodoro e nomeado Diretor-geral interino do Instituto Hidrográfico, passando a Contra-almirante em julho de 1977. Nessa altura, foi nomeado Diretor Geral do Instituto Hidrográfico.

Enquanto permaneceu no Instituto Hidrográfico, exerceu os seguintes cargos:

- Entre janeiro de 1968 e junho de 1977, foi Vogal do Conselho Superior das Obras Públicas;

- Em fevereiro de 1969, foi nomeado Vogal da Comissão para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Vasco da Gama;

- Integrou o Júri de seleção dos candidatos a professores do 11º Grupo de Cadeiras da Escola Naval, em julho de 1969;

- Representou a Direção-Geral dos Serviços de Fomento Marítimo e do Instituto Hidrográfico no Conselho Coordenador do Gabinete da Área de Sines, em março de 1972;

- Vogal do Conselho Consultor da Direcção-Geral dos Portos;

- Comandante da unidade operacional, atualmente conhecida como Agrupamento de Navios Hidrográficos;

- Em julho de 1974, foi nomeado Diretor do Gabinete de Heráldica Naval;

- Representou o Instituto Hidrográfico junto da Comissão Técnica Luso-Espanhola para as obras da barra do rio Guadiana, em 1974 e 1975;

- Integrou o Conselho de Promoções da Armada, em dezembro de 1976;

- Chefiou a delegação portuguesa que participou na XI Conferência Internacional Hidrográfica que se realizou no Mónaco, em abril de 1977;

- Entre julho de 1977 e outubro de 1978, presidiu à Delegação Portuguesa na Comissão Mista Luso-Alemã, da Comissão Portuguesa de Manutenção de Infra-estruturas NATO e da Delegação Portuguesa nos Estados-Maiores Peninsulares.

Em junho de 1977, foi promovido a Vice-almirante e, no mês seguinte, foi nomeado Adjunto do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.

Em outubro de 1978, foi promovido a Almirante e assumiu o cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada, funções nas quais se manteve até dezembro de 1987.

Em 1988, foi eleito Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa. Durante quase doze anos, promoveu esta instituição como um espaço de reflexão e debate acerca dos mais variados assuntos relacionados com a lusofonia e as “cousas do mar”.

Ao longo da sua carreira, esteve embarcado nos navios “Pedro Nunes”, “Espadilha”, “João de Lisboa”, “Afonso de Albuquerque” e “Almirante Lacerda”.

Foram numerosos os cargos que exerceu tal como é extensa a lista de louvores, condecorações e outras distinções com que foi agraciado.

Na sua notícia necrológica, publicada nos Anais do Clube Militar Naval, na sua edição de janeiro-março de 2000, o Almirante Sacchetti descreve o perfil do Almirante Sousa Leitão nos seguintes termos: “O Almirante Sousa Leitão chefiou a Armada durante nove anos, numa época particularmente difícil de transição da vida nacional. Com grande capacidade de comando e elevadas qualidades de chefia o Almirante Sousa Leitão conseguiu ultrapassar as inúmeras dificuldades que a Marinha enfrentou e teve uma ação única na pacificação interna da corporação. Foi lúcido e sensato nas suas decisões, que eram sempre influenciadas por urn forte humanismo, sem que tal o impedisse de assumir com determinação as responsabilidades e competências de comandante e de chefe, sempre que necessário.

A Marinha deve-lhe também a renovação da esquadra, programa que conseguiu lançar com serena persistência. Na altura teve que vencer a contestação de alguns e a oposição de outros, mas hoje, perante os frutos que vem sendo colhidos, é consensualmente reconhecido o mérito de tão importante iniciativa.”

O Almirante Sousa Leitão faleceu em 24 de janeiro de 2000. Mas a Obra imortaliza o Homem!

O Almirante Sousa Leitão deixou-nos um legado cultural e técnico-científico que possui a maior atualidade como os estudos que se referem ao aproveitamento do rio Tejo do ponto de vista portuário e a resolução dos problemas de assoreamento mediante o fecho da golada do Bugio. Pela sua visão e rigor, constitui uma referência para todos quantos nesta casa contribuem para o estudo e investigação das ciências e técnicas do mar.

A atribuição do nome do Almirante Sousa Leitão à Divisão de Oceanografia do Instituto Hidrográfico mais não representa do que o justo reconhecimento e a homenagem que é devida àquele que na realidade constitui um dos vultos maiores que integram o panteão da Hidrografia portuguesa.

Muito obrigado a todos pela atenção que se dignaram dispensar-me.

- Tenho dito!

Fonte: http://www.hidrografico.pt/noticia-sessao-homenagem-almirante-antonio-sousa-leitao.php



publicado por Carlos Gomes às 10:38
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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2012
VAIVÉM OCEANÁRIO VEM A OURÉM

O Município de Ourém vai acolher o Vaivém Oceanário - Educação Ambiental em movimento, dinâmica promovida pelo Oceanário de Lisboa que tem como objetivo sensibilizar a comunidade para a necessidade de conservar os oceanos, através da alteração dos nossos comportamentos e atitudes perante o meio ambiente.

O Vaivém Oceanário estará na cidade de Ourém, na Praça D. Maria II (em frente ao edifício da Câmara Municipal) de 28 de Novembro a 2 de Dezembro, com programação dirigida às escolas entre os dias 28 e 30 de Novembro, sendo os dias 1 e 2 de Dezembro reservados a visitas da comunidade em geral nos horários compreendidos entre 10h00-13h00 e as 14h00-17h00 (Sábado) e das 10h00-13h00 (Domingo).

Para esclarecimento de dúvidas, contactar através do número 249 540 900 ou do e-mail: licinia.major@mail.cm-ourem.pt.

pormenor 2

pormenor



publicado por Carlos Gomes às 19:44
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